Carta aberta ao Secretário de Estado da Cultura – #pl118

Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura, o rosto do projeto de lei da cópia privada

Caro Jorge Barreto Xavier,

Certamente terá noção da quantidade de notícias que surgiram nas última 24 horas sobre a nova proposta de lei da cópia privada que o Governo está a preparar. O tema não é novo: o Partido Socialista apresentou um projeto de lei em janeiro de 2012 que incluía a ideia peregrina de taxar a 2 cêntimos por GB produtos que permitem armazenar dados como discos rígidos, CDs graváveis, etc. Mais tarde, em janeiro de 2013, a própria Secretaria de Estado desenterrou o assunto, desta feita com valores entre os 5 e os 20 cêntimos por GB. Nas duas vezes, o barulho das queixas foi muito superior ao dos gritos de apoio das entidades do setor da cultura.

Em 2014, a lei da cópia privada volta a ser desenterrada, qual zombie teimoso. Tanto quanto sei até ao momento, há três grandes alterações relativamente às versões anteriores:

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Mudei de opinião sobre a Amazon

Mudei de opinião sobre a Amazon

Já escrevi e falei imensas vezes sobre a Amazon.

Enquanto cliente, nunca tive razões de queixa. Bons preços, boa gestão da relação com os clientes, uma experiência em loja bem acima da média, um bom sistema de classificação dos produtos (que, como é sabido, vive do feedback dado pelos próprios utilizadores) e um mercado bem regulado para outros vendedores são algumas das características deste gigante do retalho que tenho referido ao longo do tempo em conversas com amigos e em artigos por aqui.

Em boa verdade, nada disso mudou. E não, não tive nenhuma má experiência. Mas houve algo, um momento que me fez refletir sobre a forma como consumo música: no início de abril, a Amazon informou os seus clientes de que deixaria de ter entrega gratuita ao domicílio para uma série de países europeus, entre os quais estava naturalmente Portugal. Foi isto que me pôs a pensar.

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7 razões para se fecharem em casa a ouvir Future Islands

Future Islands

Nunca subestimem o poder do viral, muito menos se envolver homens a dançar de forma estranha e desconfortável. Depois de quase 11 anos a fazer excelente música sem serem muito notados, bastou aos Future Islands uma ida ao programa de David Letterman para que meio mundo começasse a falar deles. E foi também graças a essa performance que eu os fiquei a conhecer, porque o Gonçalo Sítima, ao vê-la, pensou “o João é capaz de gostar disto” (tendo em conta os movimentos de dança com que Samuel T. Herring, o vocalista da banda, abrilhantou esta atuação, o que é que isso dirá sobre mim?!).

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“Heavenly Father”, o regresso de Bon Iver

Heavenly Father, o regresso de Bon Iver

Pensei há dias, enquanto ouvia For Emma, Forever Ago, que me fazia falta música nova de Bon Iver. É provavelmente a minha banda favorita dos últimos 6 anos, pelo que não é propriamente um pensamento estranho.

Estranho é que dois ou três dias depois o desejo se cumpra. Já tinha ouvido falar de Wish I Was Here, o novo filme de Zach Braff, mas não sabia nada sobre a banda sonora. Pois que os Bon Iver figuram no alinhamento com “Heavenly Father”.

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O meu balanço do Primavera Sound 2014

O meu balanço do Primavera Sound 2014

Com expectativas pouco elevadas, lá fui eu para o Porto pelo terceiro ano consecutivo para assistir aos concertos do Primavera Sound 2014. O balanço é, mais uma vez, muito positivo, ainda que não tenha conseguido apanhar tantos momentos gigantes como nas edições anteriores do festival.

Mas vamos ao que interessa.

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Seis anos

Hoje este blog faz seis anos.

Em termos de evolução, o Ouve-se é provavelmente o blog mais aborrecido do mundo.

Passou lentamente de um blog pessoal a um blog coletivo, com o Gonçalo Sítima, o Gonçalo Trindade e o João Oliveira a fazerem-me companhia de tempos a tempos. O número de visitas continua a crescer de forma relativamente estável e ligeira e é possível que este mês consigamos ultrapassar pela primeira vez a média das 100 visitas diárias. É curioso porque tenho perfeita noção de que isto não é nada mas… há dois anos a média era mais ou menos metade. Tem de valer alguma coisa. Mas pronto, nunca pensei de forma especialmente intensa sobre isso, não é agora que vou começar.

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Rodrigo Amarante através do olhar de Cavalo

Este artigo foi escrito pelo Duarte Pedreño, jornalista da revista BGamer, e que, ao contrário de muitos músicos, paga as contas a jogar videojogos e dedica os tempos livres à música.

Rodrigo Amarante - Cavalo

Há algo de mágico no trabalho minimalista e a título independente de um músico que tenha pertencido a uma banda badalada. Para uma boa parte das pessoas, esta austeridade crua e honesta equivale a uma qualidade de confissão por contraste ao trabalho anterior, orquestrado. O tom pessoal, aos ouvidos do público com quem a relação é de longa data, assume uma dimensão tão grande quanto a da banda a que o músico pertenceu em tempos. Nesta perspectiva, é quase injusto o primeiro contacto com uma obra de estreia minimalista, em que o autor não tem a grandiosidade de composições extravagantes anteriores que sirvam de comparação e ampliem o aspecto confessional do seu trabalho.

Não obstante o seu percurso com Los Hermanos, Rodrigo Amarante dispensa comparações. Cavalo, o seu primeiro projeto a solo, não serve o público, mas o próprio músico. É uma introspeção assumida no próprio título, que por entre outros significados mais místicos, se refere à estranheza do olhar vidrado do animal. Amarante é bastante claro nas suas letras e o monólogo que desenvolve acaba por se tornar num diálogo entre o próprio e aquele a que chama de duplo: o seu eu incoerente, por assim dizer. “Nada em vão, no espaço entre eu e você, no silêncio um grito, o sim e o não”, começa assim o álbum, com um relógio a marcar o tempo, o piano a explorar o desconforto de notas imprevistas e o saxofone caprichoso a romper a composição.

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O que é o Tradiio?

O que é o Tradiio?

Todos os dias surgem aplicações novas na Web. Todas lutam por espaço no Facebook e nos telemóveis dos seus públicos-alvo e nos media. O Tradiio não é diferente.

O Tradiio é um jogo de descoberta de música portuguesa que assenta numa espécie de bolsa de valores em que podemos investir em determinada canção, apostando no seu sucesso, e gerir um portfólio de investimentos com o objetivo final de ganhar prémios. Isto do ponto de vista do jogador.

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A propósito de Stacks

A propósito de Stacks

É uma das canções que mais ouvi nos últimos seis anos. A minha favorita dos últimos seis anos. A que mais me marcou nos últimos seis anos.

Parece certamente um exagero quando alguém diz “esta canção vai mudar a tua vida”. Na maior parte das vezes, não passa disso mesmo. Mas arrisco dizer que isto é diferente.

Vou armar-me em comentador de futebol e dizer que não tenho um intensómetro, que não consigo medir a intensidade da mudança (não consigo, é certo)… mas também não consigo imaginar-me sem esta música. Sem a companhia, sem o refrão praticamente ininteligível e a melodia inesquecível, sem as frustrantes horas de guitarra na mão a tentar combater uma aparente incapacidade crónica de fazer sons bonitos.

Sem “Re: Stacks”, a minha vida seria diferente, mesmo que só um bocadinho de nada.

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