Música, indústria e tendências.

Pequenos pontos altos

Os Yo La Tengo são, para o bem e para o mal, uma banda indie. Não querem saber de grandes negócios e fazem o que lhes dá na real gana mas parecem ser naturalmente moderados, pelo que não são propriamente gente rebelde. Isto era para o bem. Para o mal: ninguém lhes liga grande coisa.

Eclécticos (ou esquizofrénicos, não sei bem), lançam álbuns cheios de altos e baixos, pós-punk à Sonic Youth e pop à Belle & Sebastian, feedback aqui, trompete ali. Confesso que não conheço muitos álbuns deles mas garanto-vos que há um deles que não é assim: Painful, do qual já falei aqui (ainda que muito por alto e a propósito de uma música específica).

I Am Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass, o último álbum propriamente dito dos Yo La Tengo foi lançado o ano passado e cumpre definitivamente a regra dos altos e baixos. Mas eu gosto de realçar os altos… e esta actuação ao vivo no programa de rádio mais referido neste blog (desta feita sem barrete vermelho) é definitivamente um ponto alto. “I Feel Like Going Home” é um momento simples. Mas é claro que nem toda a simplicidade do mundo conseguiria cobrir o talento de Ira Kaplan, o guitarrista mais underrated dos últimos, vá, 30 anos.

20-11-2008   1 comentário

Como fazer uma mixtape 3 - critérios e regras de selecção

Como fazer uma mixtape 3 - critérios e regras de selecção

Este artigo faz parte da série Como fazer uma mixtape.

Já têm uma lista gigante de músicas elegíveis para figurarem no alinhamento final da vossa mixtape. Agora, falta dar o passo decisivo, o da escolha propriamente dita. O processo pode ser fácil ou difícil, curto ou longo… vocês percebem.

No limite, na altura de seleccionar as músicas, imperará o bom senso. No meu caso, há certas coisas que gosto de ter sempre em conta.

O efeito montanha-russa

Não gosto de discos que saltam entre opostos a cada música. Na grande maioria dos casos, as músicas não ligam de forma nenhuma (e a ligação temática só por vezes funciona bem) e o disco acaba por se tornar desconfortável a quem o ouve. “Hooker With a Penis”, dos Tool, seguida de “Song for a Blue Guitar”, dos Red House Painters? Não me parece.

Má qualidade sonora e músicas gravadas ao vivo

A qualidade sonora da faixa é importante, daí que só muito dificilmente considere bootlegs e versões gravadas ao vivo como opções válidas. Os bootlegs só muito raramente conseguem ter uma qualidade aceitável e, mesmo assim, não chegam ao nível de uma edição oficial. O som é demasiado baixo e pessoas a falar e palmas abafam muitas vezes o que interessa. E isto não interessa a quem ouve o disco. Os discos “oficiais” gravados ao vivo também não são muito boas opções. No meu caso, terá sempre de passar por um editor áudio para colocar gradações de volume no início e no fim da música, para que ninguém comece a ouvir pessoas aos berros logo no início de uma faixa. Mas nem sempre é possível fazer isto sem prejudicar a música… por isso, vejam lá se se aplica.

O início

Para mim, o tema de abertura é fundamental. Posso dizer-vos que alguns dos meus álbuns favoritos conquistaram-me aí. Há várias formas de abordar a coisa: podemos querer uma daquelas faixas “intro”, uma mais crescente ou uma imediata. Só nunca queremos é uma que seja esquecível, aborrecida, dispensável. Assim à primeira vista, “Auto Rock”, dos Mogwai, é um bom exemplo de música que funciona em crescendo e “2 x 2″, dos Get Him Eat Him, de uma música imediata. Escusado será dizer que há mais.

O clímax

Mesmo que não tenham noção disso, há um ponto alto na vossa mixtape, aquela música. Construam o disco em torno dela, seja pelo tema, pela música propriamente dita ou pelo que for, mas façam-no. Respeitem o que disse no primeiro ponto mas não ponham músicas iguais antes e depois desta… porque vai misturar-se. E não queremos que se misture, queremos que se distinga. A partir do clímax… deixem o disco cair sustentadamente até ao final.

O final

Gosto de bons fechos. Gosto da forma como “Motion Picture Soundtrack”, dos Radiohead, arruma o Kid A e de como “Stable Song”, dos Death Cab For Cutie, deixa Plans respirar por fim. Gosto de ter vontade de ouvir o álbum outra vez. Para isso, é fundamental terminar bem. Queremos apoteótico? Pode ser, desde que não mate o clímax anterior. Queremos calmo? Também dá, claro, desde que não estrague o resto do disco. É como disse: quero ter vontade de ouvir o álbum outra vez.

São algumas ideias. Pessoalmente, nunca esqueço as questões que coloquei na selecção inicial e tenho-as em conta quando pego nas músicas que acabam por fazer parte da versão final. De resto, continua sem haver grande ciência nisto.

A série Como fazer uma mixtape até agora:
Introdução
Destinatário
A selecção inicial

18-11-2008   Sem comentários

Eu e os Mogwai vamos à Aula Magna

Os Mogwai vêm a Portugal em Fevereiro (no dia 5, para ser mais específico) e quero ver se garanto o meu lugar na Aula Magna o mais rapidamente possível.

Está bem, não gosto muito do novo álbum deles. No entanto, como não os vi da última vez que cá vieram, tenho de os ver ao vivo agora. É que aquela coisa de eu adorar o primeiro álbum deles é mesmo a sério. E eles não são tipos para renegarem Young Team assim por dá cá aquela palha. Portanto é bem capaz de valer a pena.

Se tudo correr bem, no dia 5 de Fevereiro por esta hora estarei pela Aula Magna.

14-11-2008   7 comentários

Parece que continuo a gostar dos Sigur Rós

Sigur Rós no Campo Pequeno

Estou a ficar velho. O concerto de Sigur Rós foi muito bom e tudo o resto mas há coisas que, a partir de uma certa idade (os vinte e poucos, no meu caso), fazem confusão a um gajo. Ontem foi um cabeludo. Fez-me impressão porque estava à minha frente e me tapou o palco, porque cantou algumas músicas e porque estava muito emocionado com aquilo tudo. OK, já sei que tenho de respeitar as pessoas e os animais todos mas tanto me faz: o gadelhudo chateou-me.

Quanto ao concerto propriamente dito, foi parecido com os últimos dois que a banda deu por cá. Með suð í eyrum við spilum endalaust, o novo álbum, é bom mas não tão bom como Takk…, que é provavelmente o meu álbum favorito deles. Adoro o ( ) e gosto bastante do Ágætis Byrjun mas foi Takk… que me conquistou verdadeiramente. Do último álbum tocaram algumas das melhores, ficando de fora a impossível “Ára Bátur” (impossível porque mete coro e orquestra), o que é uma pena. Tocaram “Gobbledigook”, o primeiro single e a coisa mais alegre que aquele concerto produziu. Não é das minhas favoritas, confesso, mas aquela brincadeira toda com confetis e afins até não ficou mal de todo.

Mas pronto, o melhor estava mesmo reservado para o encore. Calhou que as duas últimas músicas fossem as minhas duas favoritas: “Glósóli” e “Popplagið”, autênticas obras-primas que a banda teima (e bem!) em colocar em destaque nos seus concertos. Se a primeira é mais pop e imediata, a segunda (curiosamente, tem como nome de código “canção pop”) é um dos melhores crescendos da História (exagero), começando belíssima, como quase sempre em Sigur Rós, e acabando no mais absoluto barulho.

Resumindo, valeu a pena e vai continuar a valer a pena durante mais algum tempo.

(A foto é do Vasco Pereira, do FestivaisPT, que foi simpático e me deixou usar uma das que tirou.)

13-11-2008   2 comentários

Los Campesinos!: eu é que não sou parvo

Los Campesinos - We are beautiful, we are doomedOs Los Campesinos! editaram o seu segundo álbum de originais. É igualmente o segundo álbum que lançam em 2008.

We are beautiful, we are doomed não é muito diferente de Hold On Now, Youngster…, isso posso garantir-vos. E isto é relativamente grave, já que mesmo as músicas do primeiro álbum são muito iguais umas às outras. Não posso, no entanto, esquecer-me de que o disco tem músicas como “You! Me! Dancing!” e “My Year in Lists”, pequenas obras de arte pop desinteressadas e indigentes.

O novo longa-duração dos Los Campesinos! mostra mais dos mesmos riffs, da mesma energia e do mesmo caos organizado. Sinto-me mesmo obrigado a dizer que esta banda britânica não seguiu definitivamente o caminho da reinvenção, da evolução ou de qualquer outra coisa que os pusesse a mais de um milímetro de distância do que lançaram no início do ano.

Gabo-lhes a coragem para fazer uma coisa destas. Fizeram o que bem lhes apeteceu… e isso, não sendo raro na música, não deixa de ser bom.

Lançaram um álbum igual… e, correndo o risco de parecer mal, eu até gosto. Não gosto do facto de lançarem um álbum igual ao anterior mas gosto do álbum. Parece um paradoxo mas só se pensarmos nisto antes de ouvirmos as três primeiras músicas : “Ways To Make It Through The Wall”, “Miserabilia” e a fantástica “We are beautiful, we are doomed”. Depois disto, há apenas duas hipóteses: ou estão conquistados ou é melhor partirem para outra.

Eu fui conquistado e continuo a lutar contra a minha má opinião sobre as semelhanças entre duas obras supostamente diferentes. Ao menos, pegaram neste álbum e tomaram uma iniciativa bem interessante. Vão editar um número limitado de cópias de uma edição especial e uma versão digital. Dizem eles que não haverá outra versão física nem reedições. Deve ser para não espalharem por aí que andam a fazer álbuns iguais.

Mas a mim convenceram-me. E nem foi preciso enganar-me. Sim, os riffs são sempre a mesma coisa, mas olhem, calhou eu gostar.

10-11-2008   1 comentário

Ajude este homem

Esta notícia publicada ontem no Pitchfork é divertidíssima.

Gostava de ver os Blur juntos outra vez mas se é para pedir coisas impossíveis acho que prefiro pedir para ver um concerto dos Pink Floyd, definitivamente.

08-11-2008   1 comentário

A provocação das 7 canções

Vou fazer uma coisa que não faço habitualmente, que é ceder a este tipo de provocações (há quem lhes chame memes… mas quando me metem ao barulho, transformam-se em provocações). O Gonçalo Trindade, cujo blog sigo há já algum tempo, desafiou-me a escolher as minhas sete canções favoritas de todos os tempos e a desafiar sete pessoas a fazer o mesmo (esta é a parte de que normalmente não gosto porque me recorda aquelas belas correntes…). Aceito, a modos que a custo… mas aceito.

É ao segundo parágrafo que entra o meu disclaimer: amanhã ou depois, este conjunto de sete seria diferente. Mas é música pop… so, who cares?

Vamos tentar fazer isto por ordem… e com uma regra apenas: uma música por banda.

1. “Fake Plastic Trees”, Radiohead

Sabem que mais? Ainda estou para ter a certeza relativamente a isto. Não sei se a “Fake Plastic Trees” é a minha música favorita dos Radiohead mas, se for, é a minha favorita de todas as que existem. A letra e a música são fantásticas e a história de a terem gravado depois de verem um concerto de Jeff Buckley, a ser verdade, é das melhores coisas de sempre. A banda, essa, já todos sabemos que é a melhor.

2. “Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)”, Broken Social Scene

Bem sei que sou a única pessoa que adora de morte os Broken Social Scene… mas ei!, este post é sobre as minhas canções favoritas, por isso, está esta aqui, sem hipótese de discussão. Épica, gigante, foi amor à primeira vista.

3. “Apartment Story”, The National

Mais um caso pessoal óbvio. Não seria, em circunstâncias normais, uma das minhas músicas favoritas… mas o que raio são circunstâncias normais? Os The National cresceram rapidamente por estes lados e decidiram ficar. Ou decidi eu, provavelmente. “Apartment Story” é agridoce, mas sobretudo doce, e esta música faz-me bem.

4. “Last Goodbye”, Jeff Buckley

O segundo clássico da lista. Jeff Buckley foi um dos principais motivos para me agarrar ao lado bom da música. Esta música não foi decididamente um caso isolado mas foi, desde o início, a que mais se destacou em Grace, o brilhante Grace.

5. “The Bleeding Heart Show”, The New Pornographers

É uma das canções com melhor fase final de sempre. Não consigo dizer muita coisa sobre ela… mas já há muito que roda por aqui com frequência e não dá sinais de enfraquecer (o vídeo, esse, é oficioso e feito por fãs, do tempo em que ainda não havia concursos para isso). O resto das músicas também não são nada de se deitar fora.

6. “Good Woman”, Cat Power

Digam o que disserem, não há voz como esta. E esta canção (aqui em mais um vídeo nada oficial), que tem ali a ajuda do Eddie Vedder a determinada altura, é das coisas mais bonitas que saíram da mente brilhante de Chan Marshall. Já a pessoa que fez o vídeo (adivinharam: oficioso), não digo que merecesse morrer… mas penso isso mesmo.

7. “Dirty Girl (Live at Town Hall)”, Eels

À sétima música, a coisa fica definitivamente polémica. Esta música chegou-me só este ano. Nunca a tinha ouvido antes, nesta versão ao vivo ou na original de estúdio. Por isso, pode ser que ainda esteja a fazer este julgamento completamente toldado pelo momento (que já dura há uns meses valentes). Mas não interessa (se quiserem, releiam o disclaimer). Outra coisa engraçada é ser especificamente esta versão, que é muito diferente da original. A original é uma peça de rock’n'roll bem catita mas não é material para as melhores canções de sempre. A versão ao vivo, de que já falei aqui, é.

Comece a discussão. Gostava de ver - mas só porque sou, de certa forma, obrigado a não quebrar a corrente (argh!) - se esta, esta, esta, esta, esta, esta e esta pessoas têm alguma coisa a dizer sobre o assunto.

08-11-2008   4 comentários

A reestrutruração da EMI

A reter: a EMI vai dividir o negócio da gravação de música em três unidades de negócio (new music, catalog e music services) e, segundo a Billboard, a estratégia do grupo passará por pôr o foco no consumidor, inovar, fortalecer a relação entre os artistas e os consumidores e apostar na área digital.

Depois de a EMI Music ter arrastado o grupo para a sarjeta, com perdas de mais de mil milhões de dólares, parece que o novo CEO, Leoni-Sceti, está apostado em reestruturar a empresa de forma a recuperar algum terreno. Não tenho visto grande actividade por parte da EMI mas continuo à espera. A estratégia não podia ser mais genérica: acho que só falta mesmo dizer que o público-alvo é o público em geral e que o objectivo é vender mais.

Gostava de ver um pouco mais de acção… mas parece que está difícil. Venham de lá mais planos de intenção, sendo assim.

08-11-2008   Sem comentários

Eingya, um frio álbum de Outono

HeliosEsqueci-me de que Keith Kenniff não desapareceu. No final de 2006, recomendaram-me um álbum do projecto deste músico norte-americano que me caiu muito bem. E até hoje continuo sem ter ouvido mais nada dele, ou de Helios, que é o nome do projecto.

Pois bem, falo do que sei e espero que vos faça bem. Ouçam, se puderem.

Eingya é álbum para fazer nascer o dia. As melodias são coisas do outro mundo e, com uma produção cuidada, este disco é um quase pós-rock de poucas guitarras e nenhuma voz. Ouve-se tudo em Eingya; cada instrumento é uma camada diferente. Os sons vêm de sítios diferentes e soam diferentes a cada vez que os escutamos.

É um álbum muito bonito. E não é o enamoramento inicial que me leva a dizer isto porque já passou algum tempo desde que o ouvi pela primeira vez. Entretanto, este Keith Kenniff já lançou mais dois discos (um deles foi um mini-álbum, mas ainda assim…) e eu ainda não me cansei deste. Já lá vão dois anos… mas continua a ser um óptimo álbum de Outono. Ligeiramente frio, mas aquele frio bom.

05-11-2008   1 comentário

Os Mogwai lançaram um álbum… mas eu não gosto

Mogwai - The Hawk Is HowlingNão gosto do novo dos Mogwai. E reparem que até gosto da banda, o que faz com que não possa desculpar-me com o facto de ser pós-rock igual ao de tantas outras bandas que por aí andam a fazer música.

A verdade é que acho o álbum aborrecido. Ao contrário de outros discos da banda, não tem voz em nenhuma música. Também não há propriamente muitos altos e baixos. As faixas mais pesadas (como “Batcat”) têm o barulho todo do costume… mas falta-lhe a intensidade visceral da obra-prima “Like Herod” para ser alguma coisa de jeito. Em The Hawk is Howling não encontro resquícios das maravilhosas “Yes! I Am A Long Way From Home” e “Stanley Kubrick”, da épica “Mogwai Fear Satan” ou sequer de “Hunted by a Freak” e “2 Rights Make One Wrong”. Encontro, isso sim, mais Mr. Beast… o que simplesmente não satisfaz.

A banda sonora de Zidane: A 21st Century Portrait fez-me esperar por um grande álbum. Esse álbum não chegou e é pena.

27-10-2008   5 comentários