Posts de — Maio 2008
Prince, o rei do copyright
Prince é a contradição em pessoa. Tão depressa utiliza métodos inovadores de distribuição de música como a seguir ameaça processar o YouTube e o eBay, como fez há uns tempos, por violação de copyright. É nesse sentido que tem pedido ao YouTube para bloquear todos os vídeos de actuações suas e afins. Mas o que ele muito provavelmente não pode fazer é exigir o bloqueio de vídeos de músicas relativamente às quais não goza de quaisquer direitos legais. E isso impede-o? Ora essa, claro que não.
A Billboard noticia que Prince exigiu que fossem retirados os vídeos da sua interpretação de “Creep”, dos Radiohead, em Coachella. O pedido foi aceite mas a questão impõe-se: porquê?
A música não é dele e, que se saiba, nenhum dos vídeos foi realizado por ele. Não faz sentido nenhum. Para ajudar à festa, o vocalista dos Radiohead, Thom Yorke, que já não pode com “Creep” nem por nada, pediu que desbloqueassem os vídeos de “Creep” porque a canção, para todos os efeitos, é dos Radiohead. Ed O’Brien, um dos guitarristas, queria vê-la no YouTube e não pôde. A ironia.
O YouTube e Prince ainda não comentaram esta situação mas isto está a ficar um pouco ridículo. Entre Lalas, copyright à escolha do freguês e missões metálicas, já nem sei o que é pior.
30-05-2008 1 comentário
Arts & Crafts: demasiado boa para ignorar

O que têm em comum Broken Social Scene, Feist, Constantines, Stars, Los Campesinos! e Apostle of Hustle? Simples, a editora.
A Arts & Crafts é, muito provavelmente, a minha editora preferida. Não editam muita coisa (uma visita à lista de lançamentos mostra seis discos editados até agora em 2008, metade dos quais singles ou EPs), mas editam bem.
Tenho estado atento à Arts & Crafts desde que tomei contacto com os Broken Social Scene e tem sido difícil rejeitar o que é lançado com aquele selo. Foi através da editora que fiquei a conhecer quase todos os nomes que referi no início: a pop doce dos Stars, o rock dos nossos tempos dos Los Campesinos!, a fusão de géneros dos Apostle of Hustle ou as grandes intenções dos Constantines… tudo graças a esta editora.
Aproveito para avisar que está aí a chegar (via Arts & Crafts, claro) o álbum de estreia a solo de Brendan Canning, um dos membros centrais dos Broken Social Scene. Depois de Kevin Drew ter posto na rua um dos álbuns do ano de 2007, é a vez de Canning se colocar a jeito para os tops de final de ano. O disco chama-se Something For All Of Us… e tem lançamento marcado para 22 de Julho. Entretanto, já se pode ouvir e fazer download do single “Hit The Wall”.
Mesmo que os resultados brutos não ultrapassem os de editoras maiores (ao nível de artistas de que gosto; não falo, naturalmente, de resultados financeiros), a qualidade acima da média dos lançamentos desta editora canadiana é motivo mais do que suficiente para manter debaixo de olho. No limite, é uma das minhas newsletters obrigatórias.
30-05-2008 3 comentários
Majors têm de encolher
Hoje em dia, a música – legal ou ilegalmente – está facilmente acessível com duas grandes vantagens para os que a ouvem: mais depressa e de graça (pelo menos a maior parte das vezes). Desvantagens? Só mesmo para a indústria, ou seja, os que ficam com o dinheiro que pagamos pelo disco. Sinceramente, abstenho-me de tomar partido neste assunto: não me junto aos coitadinhas das editoras nem aos libertadores da música livre. Há um modelo de negócio obsoleto outrora muito lucrativo que alguns resistentes tentam manter a todo o custo (leia-se: nos tribunais); por outro lado, já estamos todos habituados ao Mininova, ao Pirate Bay e aos velhinhos eMule e Soulseek… e não há volta a dar.
Assim, em que ficamos? Acabam-se os produtos físicos e passamos a sacar tudo da Internet? Quem quiser, sim. Se bem que ainda há (a sério!) coisas difíceis de encontrar nos sites de partilha de ficheiros. No entanto, e ao contrário do que mentes brilhantes dizem semana após semana há já uns dois ou três anos, o CD não está morto. Tal como o vinil não estava, lembram-se?
A tendência é simples: o CD vai tornar-se brevemente num produto de nicho. Actualmente, ainda tem muita força em alguns países com uma cultura musical mais profunda (sendo que o Reino Unido é um dos melhores exemplos), mas a tendência é para que seja cada vez menos importante. As editoras ainda não encolheram mas vão ter de encolher para lidar com isto: a estas empresas caberá tornar atractivos os catálogos de fundo e vender o CD como um produto muito exclusivo, de luxo até. Para além disto, terão sempre os D’zrt (paz à sua alma), a Floribella (para lá caminha) e os Tokio Hotel (gomas em forma de ursinho… seriously?) para fazer uns trocos por fora (toques de telemóvel, t-shirts, licenciamento… ou seja, tudo e mais um par de botas). Assim, o caminho divide-se em:
- projectos ou contratos 360/cash cows instantâneas (como os D’zrt: TV, música, espectáculos… cinema?)
- produtos especiais (ultra-mega-edição-especial-deluxe-comemorativa)
- catálogo de fundo
Claro que isto está sempre dependente do público-alvo. Enquanto houver velhinhos (os actuais, pelo menos), haverá sempre espaço para vender Diana Krall e Norah Jones. Mas só enquanto houver velhinhos.
Voltando ao caminho tripartido, os projectos 360 são definitivamente orientados para as massas, enquanto os segundos visam contentar os melómanos mais agarrados ao formato físico e os coleccionadores (que são os que estão dispostos a gastar mais dinheiro em música). O catálogo de fundo é uma espécie de garantia de receita mínima, pelo menos por enquanto.
Pessoalmente, confesso que a embalagem e os extras me tiram do sério. Numa compra de um disco, o bom aspecto e a ideia (errada) de que estou a pagar pouco mais por muito mais são argumentos de peso para mim. Claro que a esta altura já filtrei a música de que não gosto. Isto para chegar a quê? A isto.

Comprei-o na Fnac há uns dois meses porque queria uma colectânea relativamente completa de Bob Dylan. Comprei a caixa sem saber o que lá estava dentro. Quer dizer, sabia que tinha uns postais ou lá o que era. Cheguei a casa, abri-a e, antes de ouvir os discos (três, com 51 músicas), já tinha valido a pena: uma embalagem meio aveludada por dentro, com o símbolo da Columbia, parte da Sony BMG, em dourado (arrisco dizer “à moda antiga”), com dez ou 20 pequenas réplicas de posters “clássicos” (como o do primeiro concerto do grande mentiroso em Nova Iorque) e a devida contextualização, com um booklet de 40 páginas com texto e imagens e três CDs a imitar vinil (em ambas as superfícies) e com embalagens a imitar caixas de vinil (do tipo sleeve de cartão, mas mais larga).
Eu sei que sou um pouco geek neste aspecto. Consumista, até. Mas o problema não está definitivamente nestas caixas; o problema está no resto. 18 Euros por um CD na loja quando custa zero na Internet? 10 Euros no iTunes quando custa zero ali ao lado?
The times, they are a-changin’.
30-05-2008 4 comentários
Sigur Rós regressam do frio
Os Sigur Rós vão lançar um novo álbum a 23 de Junho. Impronunciável, o título é Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust e o primeiro single já aí anda há uns dias. “Gobbledigook” está disponível em áudio e vídeo para download no site da banda e, à primeira audição, parece-me ser muito diferente do que os Sigur Rós têm feito. Ainda não sei se gosto do caminho (bem, ainda nem sequer sei se é realmente este o caminho)… mas admito que me deixa curioso relativamente ao álbum. Mais animada, a música parece respeitar, ainda assim, o espírito de Takk…, o álbum anterior da banda islandesa.
Mas o melhor é mesmo darem uma vista de olhos no videoclip. Tem pessoas nuas. E correm.
Se quiserem mais informações (o alinhamento do disco, por exemplo, já é conhecido e tem uma música em Inglês…), o 18 seconds before sunrise promete novidades nas próximas semanas.
29-05-2008 1 comentário
Cat Power: boa mulher no Coliseu
Esperei dois meses por este concerto. Comprei bilhete para um lugar central na primeira plateia, apesar de não ter ficado muito satisfeito com o concerto de Cat Power na Aula Magna, há um ano e meio atrás. Na altura, pareceu-me uma coisa muito pouco profissional e cheia de momentos parados. A Chan Marshall propriamente dita tinha sido o único elemento que tinha evitado o descalabro total daquele concerto. E é ela também que faz com que este texto possa parecer demasiado adjectivado.
Desta feita, excepto a primeira parte descabida (nem me lembro de que agrupamento musical era aquele; recordo-me apenas dele ser de Londres e ela ser de Paris), a noite valeu a pena. Chan Marshall falha em alguns dos temas que escolhe para o alinhamento e falha ocasionalmente quando canta. Mas é exactamente esta imperfeição, esta humanidade, que a torna numa das mais impressionantes artistas dos últimos 15 anos. A verdade é que os concertos de Cat Power são únicos porque ela tenta, erra, inventa, mistura e estraga e faz isto de forma tão eloquentemente decadente que é impossível não adorar.
Sim, muitos não adoraram a música: “entre o sono e o sonho”, diz Pedro Figueiredo no Diário Digital, como que a tentar salvar o concerto aborrecido que foi o de Cat Power. Ali, naquele palco, a música é apenas parte de um todo que inclui a imagem e a atitude da figura central e o próprio ambiente onde esta actua. A música é a mesma de sempre; é ela a espaços, longe da omnipresença. Mas o concerto é a Chan Marshall total, o fenómeno incoerente e desconexo mais apaixonante da música actual.
A música propriamente dita foi feita de Jukebox, The Greatest e umas migalhas. Ela queixava-se do som aqui e ali (como tinha feito na Aula Magna) e escondia-se em danças dignas de um mimo (como tinha feito na Aula Magna). Lá para o final, veio até à plateia e esteve a três metros de mim. Foi o momento alto do concerto, ela ali a gritar qualquer coisa de que já não me recordo e eu a ser feliz. Depois fugiu para o palco mas não fugiu da sala: ficou por lá sem cantar, a agradecer, a distribuir setlists e a fazer palhaçadas durante mais uns largos minutos.
Musicalmente, nunca será perfeita. É raro ver perfeição e displicência na mesma receita. Ela é assim. Ao concerto faltou apenas “Good Woman”… que seria mais uma a juntar ao tal sono. A verdade é que dormiríamos todos muito melhor.
28-05-2008 3 comentários
