Música, indústria e tendências.

Posts de — Junho 2008

Um vídeo à moda antiga

Saído directamente do início dos anos 90, este vídeo dos Yo La Tengo é muito pouco diferente de muitos outros que se fizeram por aquela altura. Banda, luzes, umas experiências com cores e câmara lenta e estava feito o vídeo.

A grande diferença é mesmo a música, uma das melhores que já editaram. Saída de Painful, um álbum que a Fnac me diz não existir mas que na realidade saiu em 1993 e é um dos melhores da banda, “From a Motel 6″ é uma obra-prima que se destaca pela letra absolutamente cínica, cansada e irónica. Perfeita, portanto. E depois tem o riff…

Deixo-vos com “From a Motel 6″.

29-06-2008   3 comentários

Depois do single, o álbum

The Ting Tings - We Started NothingJá falei aqui da dupla britânica The Ting Tings a propósito do single “That’s Not My Name”, que atingiu o topo da tabela de vendas do Reino Unido em Maio pela sua capacidade instantânea de fazer dançar e pela melodia simples mas facilmente memorável.

Tanto a vocalista Katie White como o baterista Jules de Martino têm um passado engraçado. Ambos passaram por bandas teen manhosas e ambos saíram frustrados dessas experiências. A banda da vocalista nunca conseguiu um contrato de edição discográfica apesar de ter feito primeiras partes de bandas tão ilustres como Five e Steps. As duas por que Jules de Martino passou editaram uns quantos singles mas nunca duraram muito tempo. Pois parece que o tempo perdido serviu para ficarem com um certo pó à indústria discográfica. Eles lá sabem.

Em que é que tudo isto influencia We Started Nothing, o álbum de estreia? Em muito, ora. Antes de mais, as melodias. Simples, repetitivas e ouvidas anteriormente, como se recomenda na música pop. Por outro lado, há uma irreverência constante (talvez fruto de terem “crescido” sozinhos como dupla) que acaba por tornar atractivas melodias que, dá-me a impressão, já ouvimos em qualquer lado.

Para além de “That’s Not My Name”, só mesmo “Be The One” acabou por fazer mossa aqui para estes lados. O resto ouve-se, é verdade, e até poderá ser apreciado no ambiente certo (ou pelas pessoas certas)… mas não é nenhuma coisa para se pôr num livro de memórias (a não ser que seja no de algum dos membros da banda, aí faz sentido). É um álbum giro, animado e pouco mais.

28-06-2008   Sem comentários

eMusic é mau para os artistas mas pode ser que mude

eMusicBruce Houghton escreveu dois artigos muito interessantes sobre o eMusic, a mais conhecida das lojas de música digital que disponibilizam serviços de subscrição mensal. O autor do Hypebot falou um pouco sobre o seu problema com o eMusic, dizendo que a estrutura de preços desta loja prejudica os artistas e colocando alguns números em discussão. Comparado com o iTunes, por exemplo, o eMusic apresenta uma estrutura muito mais benéfica para si do que para os artistas e as editoras.

Houghton, com 25 anos de indústria, é dono da agência de artistas Skyline Music e da Skyline Innovations, uma espécie de divisão de marketing autónoma da sua casa-mãe. Assim, os números que refere não deverão estar muito longe da verdade, dado que tem um grande conhecimento do mercado.

No entanto, mais do que as críticas, gostaria de destacar a proposta que Bruce Houghton faz para o eMusic consegiur “salvar a sua alma”. De forma muito estruturada, propõe uma série de inovações para a loja, como eliminar a obrigatoriedade da subscrição, praticar preços variáveis e tornar os subscritores em membros VIP. Tudo isto com o objectivo de fazer com que o eMusic se torne no principal destino relacionado com música independente.

O texto contém algumas ideias muito boas mas, ainda assim, levanta-me algumas dúvidas. Será que uma loja alguma vez conseguirá ser o principal site internacional de música independente? É que, para todos os efeitos, é uma loja. O critério principal está longe de ser editorial; um negócio que depende directamente da venda dos produtos que mostra é muito diferente de uma publicação, que vive da credibilidade/audiência para vender espaço publicitário a anunciantes (sim, bem sei que isto também tem os seus momentos).

Por exemplo, se o Pitchfork me disser que determinado álbum é bom, o melhor do ano, é provável que o façam por uma série de razões… mas a mais importante não é, definitivamente, o facto de querer vender mais umas quantas cópias daquele disco para cumprir objectivos de negócio. Assim, torna-se mais credível, atrai mais pessoas e, consequentemente, publicidade… e lá sobrevive. Descrevo este processo de forma quase minimalista mas acho que percebem a lógica.

Outra questão melindrosa é a dos preços variáveis, com a qual concordo. Mas como é que se faz? Mais do que outros dos pontos levantados, acho que seria muito interessante ver evoluir esta discussão.

27-06-2008   Sem comentários

Editar em nome próprio: moda ou solução?

No really. It's up to you

A auto-edição está na moda. O Nuno Galopim chama a atenção para este facto a propósito da notícia de que os Shins estão a preparar-se para editar o seu próximo álbum pela Aural Apothecary, editora do vocalista James Mercer. A Sub Pop, que lançou todos os discos da banda até agora, poderá ficar encarregue da distribuição.

Já tinha visto a notícia há uns dias mas foi este comentário que me fez pensar um pouco mais sobre o assunto. Haver artistas a editar em nome próprio não é propriamente uma grande novidade: Ani DiFranco, por exemplo, lançou todos os seus álbuns (desde 1989, portanto) através da sua Righteous Babe.

A tal moda, no entanto, tem sido referida muito mais nos últimos tempos. Os grandes responsáveis são os Radiohead e os Nine Inch Nails, duas bandas que, depois de terminarem os contratos com as respectivas editoras, optaram por tratar sozinhas do lançamento dos seus discos. Tanto num caso como no outro seguiram-se downloads gratuitos, envolvimento dos fãs, webcasts e mais umas quantas iniciativas inovadoras. Os Radiohead, entretanto, deram uma distribuição tradicional ao álbum através da XL Recordings. Os Nine Inch Nails de Trent Reznor continuam felizes e contentes da vida assim.

Inovações à parte, será vantajoso para o artista prescindir da divulgação do seu trabalho através da máquina de marketing e de comunicação de uma major? Simplificando, se forem conhecidas, é quase que sim. Se não, é mais complicado.

Mas que dizer dos pequenos Arctic Monkeys, que antes de terem contrato já eram a next big thing britânica? Ou dos milhares e milhares de artistas ligados às majors que nunca conseguiram ter sucesso (umas vezes por serem francamente maus, outras por incompetência da respectiva editora)?

Pessoalmente, não tenho a certeza. Há sempre uma série de factores a ter em conta: públicos-alvo (por exemplo, uns estão mais presentes na Internet, outros nem tanto), notoriedade do artista, qualidade do trabalho, esforços de divulgação (sejam pessoais, de editoras independentes ou de majors) e por aí fora.

E vocês, o que têm a dizer relativamente a crescente mediatização da edição em nome próprio? Usem e abusem dos comentários.

26-06-2008   3 comentários

Ao quinto álbum, descansaram

Sigur Rós - Með Suð Í Eyrum Við Spilum EndalaustA minha relação com os Sigur Rós é estranha. Começou tarde e a más horas, já depois de ( ) andar pelas bocas do mundo, mas só quando Takk… apareceu é que eles me agarraram completamente. As melodias e forma como eram postas em prática viciaram-me de tal forma que há, ainda hoje, muito poucos discos que considere superiores a este. De qualquer forma, só depois é que comecei a explorar convenientemente os álbuns anteriores e o conceptual ( ) começou a ganhar força. Aquelas músicas feitas de crescendos extenuantes eram arrebatadoras e, por esta altura, já eu estava conquistado. O aclamado Ágætis Byrjun, segundo álbum da banda (o primeiro foi Von, lançado em 1997), curiosamente, foi o último que me chegou convenientemente aos ouvidos… e acho que nunca chegou ao nível dos outros. Depois vieram os concertos no Coliseu de Lisboa e no Pavilhão Atlântico e a coisa acalmou.

Mas porque é que a minha relação com os Sigur Rós é estranha? Porque, de repente, o vício passou e deu lugar a uma relação seca à distância que, só com grande esforço, tinha aproximações. Comprei a compilação Hvarf/Heim e gostei… mas pouco mais. E é neste ambiente tenso entre nós que os Sigur Rós lançam o impronunciável Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust.

O single é alarmante. “Gobbledigook” é demasiado upbeat para Sigur Rós, o que me tornou impossível a espera pelo novo álbum. Seria tudo assim? Seria possível?

A resposta é: não. Despachada “Gobbledigook”, que é a música que abre o disco, os Sigur Rós recordam-nos que, para alegrar e fazer dançar, andam cá muitos outros. Os Sigur Rós mandam, assim, a nossa alegria inicial (ou o susto, no meu caso) à fava e mostram que quatro gajos melancólicos da Islândia fazem mesmo é coisas como “Ára Bátur” e “Festival”.

O ambiente é semelhante ao de Takk… mas mais primaveril (ou talvez eu esteja influenciado pela capa do álbum). As melodias continuam quase perfeitas mas parecem estar mais despidas de arranjos instrumentais.

Não se vê a depressão profunda de ( ) nem a riqueza de texturas de Ágætis Byrjun em quase ponto nenhum de Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust. Takk… era de uma grandeza pop quase inatingível; agora, os Sigur Rós decidiram voltar à Terra e descansar um bocadinho. Ainda se notam resquícios do último álbum da banda em faixas como “Inní Mér Syngur Vitleysingur” ou “Við Spilum Endalaust”, mas o tom domiante agora é um outro… muito mais pacífico.

Apesar de ser uma obra menor quando comparada com Takk…, o novo álbum dos Sigur Rós é, ainda assim, um óptimo registo, um dos melhores álbuns que 2008 viu até agora.

Agora é esperar pelo regresso deles a Portugal, que está marcado para o  dia 11 de Novembro no Campo Pequeno, em Lisboa.

24-06-2008   6 comentários

EMI ganha acesso ao arquivo da BBC

BBCA EMI assinou recentemente um acordo com a BBC que lhe vai permitir aceder ao extenso arquivo áudio e vídeo da televisão e rádio pública britânica com o objectivo de editar algumas actuações de artistas do seu catálogo. Este acordo permitirá lançar comercialmente algumas obras raras nos formatos habituais (CD, DVD e digital); em troca, a BBC fica com a possibilidade de usar e difundir actuações dos artistas da EMI a nível nacional e internacional com fins comerciais.

Este acordo parece ser um pouco mais abrangente do que o que a BBC assinou em 2005 com a Universal Music, que apresentava diversas limitações ao nível da utilização dos materiais. De resto, é uma excelente oportunidade para a editora disponibilizar material até agora inacessível de alguns dos maiores nomes do seu catálogo e ganhar algum dinheiro com isso. A BBC parece ganhar menos com o negócio do que a EMI mas, ainda assim, ganha quase instantaneamente mais umas horas de programação que pode usar livremente sem ter de investir muito mais.

Segundo a Billboard, graças a este acordo, os consumidores de música podem aguardar por pérolas como uma actuação dos Pink Floyd de 1967 com algumas músicas de The Piper at the Gates of Dawn ou alguns dos primeiros registos dos Coldplay. A ideia parece-me interessante.

A EMI não vai sair do sufoco, é certo, mas parece começar assim a seguir um caminho interessante no que diz respeito ao seu modelo de negócio. Claro que “parece”, aqui, é a palavra-chave. Creio que este acto aparentemente sensato é apenas coincidência e que a empresa detida pela Terra Firma deverá agarrar-se a uma série de más ideias pelo caminho que compensarão a aparente vantagem da exploração destas raridades.

Este mercado é especialmente valioso para fãs e coleccionadores, o tal nicho que me parece ser uma das soluções possíveis para a indústria. Mas, se optarem por uma estratégia de marketing e tradicional, dificultarão imenso a comunicação do produto como algo especial e, consequentemente, acabarão por enterrar a diferença.

23-06-2008   Sem comentários

Pelo menos, bater o pé

Apesar de já andarem por aí desde 2006, os ingleses The Ting Tings lançaram o seu primeiro álbum apenas há um mês. We Started Nothing estreou-se no primeiro lugar do top de vendas do Reino Unido. Aconteceu o mesmo com o excelente single “That’s Not My Name”, que me foi apresentado há uns dias e provocou boa impressão imediata.

Quanto ao álbum, ainda não o ouvi mas a crítica não tem sido especialmente simpática. A maior parte das críticas são positivas mas pouco. A bíblia, por exemplo, dá-lhe nota negativa e um raspanete. Quando puser as mãos em We Started Nothing, logo digo de minha justiça.

Para já, fiquem com “That’s Not My Name”, pop pop pop.

23-06-2008   4 comentários

5 mil milhões de downloads do iTunes e eu ainda gosto do CD

Music 2.0

Parece que o iTunes ultrapassou a barreira dos 5 mil milhões de downloads. Isto significa que, entre 2003 e 2008, a média é de mil milhões de downloads por ano, um número significativo e que tem tendência a aumentar. A estratégia iPod + iTunes da Apple possibilitou que a loja digital passasse rapidamente de uma novidadezinha a um negócio importantíssimo num mercado que continua a encolher.

Ainda que não compreenda a opção pela compra de MP3 de qualidade moderada na maior parte dos casos, posso dizer que já comprei alguns EPs e umas quantas músicas soltas no iTunes. Por um lado, o facto de o preço estar tabelado à unidade é muito atractivo (pago muito menos por um EP no iTunes do que se o quiser em disco). Para além disto – e este é o elemento que mais me atrai –, têm uns quantos lançamentos exclusivos.

Fora isto, não percebo como é que é possível comprar-se, por exemplo, o álbum dos Coldplay no iTunes quando, ao lado, se encontra o mesmo álbum, por vezes com melhor qualidade, de graça. Para além disto, o download através do iTunes é muito confortável e rápido (mais do que através de BitTorrent e RapidShare, por exemplo)… mas a gestão dos ficheiros é muito mais fácil quando não há limitações ao nível da gravação e da cópia. Veja-se o caso da MSN Music, que agora teve alguma evolução.

O iTunes, como a maior parte das lojas de música digital, oferece a troco de dinheiro o que outros oferecem (ilegalmente) de graça. Eu, que adoro o CD, esse formato que todos começam a deixar de lado (seja para avançar para o download, seja para readoptar o vinil), acho difícil que este negócio se torne no principal modelo de venda de música. No género pago, aliás, prefiro muito mais o modelo de subscrição do eMusic, que peca somente por ter um catálogo e um plafond de downloads muito limitados.

O iTunes é uma solução muito inteligente para a Apple, que só tem a ganhar com isso. O consumidor ganha um pouco em conforto no curto prazo mas, com o tempo, perde liberdade. Em caso de avaria do computador, fica sem o produto que comprou. Se quiser apagar um ficheiro temporariamente, terá de o gravar em CD antes (e lá se vai o conforto de não ter CDs à mistura); se o perder por uma avaria no computador, fica sem ele. Para além disto, as limitações destes ficheiros implicam que só se possa ouvir a música num número limitado de computadores e que só se possa gravar os ficheiros um determinado número de vezes. Uma chatice, portanto.

No que diz respeito a comprar, continuo a preferir o CD a tudo o resto. Agora podia pôr-me para aqui a falar do prazer de abrir a caixa pela primeira vez, pegar no booklet e todas essas coisas… mas digam-me vocês o que preferem. Entretanto, para os que não gostam de comprar há sempre o Jamendo, o portal de música livre que conta já com dez mil álbuns para download. Números bem diferentes dos do iTunes mas, ainda assim, muito interessantes.

20-06-2008   3 comentários

Resignação q.b.

Kensington HeightsVou falar (muito brevemente) sobre os Constantines como se Kensington Heights fosse o seu primeiro álbum. Para mim é, que não ouvi nenhum dos outros. Ignorem, portanto, a minha ignorância.

Não é catchy, não é pop, não é moderno. É, isso sim, muito americano, como Bruce Springsteen, a folk e aquelas raízes todas. A espaços, Kensington Heights é rock áspero, como em “Hard Feelings”, a música de abertura. Mas também é a folk campestre e intimista que se ouve (e quase se cheira) em “Time Can Be Overcome” e “The King”, por exemplo.

Guitarras distorcidas, melancolia (ou resignação) e algum desleixo na hora de fazer soar a nota certa fazem deste disco um hino ao “deixa ver como isto sai, que há-de sair bem”. Vai passar ao lado de muito boa gente e é pena.

A tensão de “Shower of Stones”, a urgência de “Brother Run Them Down” ou o crescendo simples de “Do What You Can Do” dizem-nos que o rock não está morto. Está bem que os Constantines às vezes parecem saídos dos anos 70… mas não deixam de fazer sentido. Não planeiam salvar o rock… mas parecem disponíveis para ajudar a mantê-lo nas bocas do mundo. You do what you can do with what you’ve got.

17-06-2008   1 comentário

Ela contou e nós ouvimos atentamente

Uma palavrinha para a Feist, que se portou muito bem no concerto que deu na Aula Magna, o último desta digressão. Dona de uma voz fantástica, passou por muitas das músicas de The Reminder e por umas quantas de Let It Die, entre as quais “Inside Out” e a própria “Let It Die”. Senti falta de “The Park” mas “Past in Present”, uma das minhas favoritas do último álbum (e a que mais se aproxima do trabalho dela com os Broken Social Scene) ajudou a compensar um pouco.

Foi um concerto muito… cândido. Duas horas de jogos de sombras em pano de fundo, músicos competentes e uma voz muito bonita fizeram com que a noite de quarta-feira se tornasse bem menos penosa para mim, que estava em sofrimento por causa do bloqueio dos camionistas e da falta de combustível no Aeroporto de Lisboa. Como sabemos, essa outra aventura correu maravilhosamente. Quanto a esta, terminou com o “Malhão” para a cunhada portuguesa de Feist (que estava ao telefone), que parece começar a ser uma tradição dos concertos da canadiana em Lisboa. Ficamos à espera do próximo então.

15-06-2008   Sem comentários