O público é um triste espectáculo

Não há muito a dizer sobre a passagem de Amy Winehouse pelo Rock In Rio. Para primeiro concerto depois da reabilitação, a cantora não estava nada mal servida de álcool e de sabe-se lá mais o quê. Até aqui, portanto, tudo “normal”. No entanto, houve dois pormenores (ao longo do dia e imediatamente antes do concerto começar) que me alertaram para uma realidade muito infeliz.
O primeiro: 90 mil pessoas compraram bilhetes para ir ao Rock In Rio. Porquê? Por causa dela. Por causa da música dela? Não. Parto do princípio de que grande parte dos que pisaram o Parque da Bela Vista na noite de sexta-feira fizeram-no por uma espécie de prazer mórbido, uma celebração da decadência (e uma decadência muito real) de uma artista cuja música deveria ser mais do que suficiente para encher dois Parques da Bela Vista. As pessoas queriam vê-la bêbeda, drogada ou de qualquer outra forma. Com um pouco de sorte, talvez morresse em palco. Tabloid hell indeed.
O segundo: antes do concerto começar (com mais de meia hora de atraso), as pessoas assobiavam e queixavam-se da espera. Acho que até é natural. Mas as manifestações soaram-me animalescas, como se de repente estivessem todos num coliseu romano à espera de um gladiador… só para verem um bocadinho de sangue e voltarem às suas vidinhas de seguida.
Isto foi o pré-concerto. Durante o concerto propriamente dito, foi o que se esperava. Ninguém conhecia nada e ninguém se importava minimamente com a música. Assistiram ao espectáculo e só tiveram pena de não ter havido mais uma queda, birra ou algo do género.
Eu gosto dela. Da música e da voz; do fenómeno, nem tanto.

2 comentários
[...] posing e concentração na execução que todas aquelas bandas (exceptuando, está claro, Amy Winehouse) tinham, ver uma banda tão natural em palco é muito [...]
[...] Rock In Rio e do Alive. Se dos primeiros não há muito que fique na memória – excepção feita a um especialmente triste espectáculo -, dos últimos muito pode ser dito. Mas nem só de festivais vive o homem. 2008 foi um ano regado [...]
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