Posts de — Julho 2008
Low: o nome assenta-lhes bem
Conhecia muito pouco dos Low – e ainda conheço, parece-me. Falhei o concerto deles em Barcelona e, quando comprei Drums and Guns há umas semanas, estava quase completamente às escuras. Da pouca coisa que tinha ouvido deles, tinha-me ficado a ideia de que era coisa deprimente.
Depois de ter ouvido este Drums and Guns, que a banda lançou em 2007, a minha opinião não mudou muito: é, sem sombra de dúvida, um dos álbuns mais deprimentes que já ouvi. E não me refiro àquela depressão de amor ou algo do género, que essa está presente em quase tudo o que se ouve por aí, mas antes a um estado tão penoso e dormente que quase nos convence de que mais nada vale a pena. Resumindo, podemos dizer simplesmente que Low foi uma óptima escolha para nome.
Este sentimento surge de todos os lados, em todos os momentos. Surge na alucinação de “Dragonfly”, na fácil profecia de “Pretty People” ou na marcha lenta de “Dust On The Window”. A música lenta vai acenando por entre as letras desiludidas. Por vezes, soa como se os instrumentos estivessem a tocar sozinhos, sem executante nem companhia (veja-se “Hatchet”); por vezes, apenas estranha, como se servisse de banda sonora a uma qualquer pequena cidade abandonada (“Take Your Time” ou “In Silence” são bons exemplos).
Que disco tão deprimente.
Os que conseguem ouvir música sem pensar na vida que levam estão imunes à depressão dos Low. E podem deixar-se mergulhar num álbum denso e nervoso, num conjunto de canções estranhamente bonitas, entre as quais reinam “Murderer” e “Violent Past”, as duas últimas.
Aos outros, que deixaram e vão continuar a deixar escapar este disco, you’re all gonna die.
15-07-2008 1 comentário
Alimentar um monstro chamado E
Lembram-se daquela compilação dos Eels de que falei aqui há pouco mais de uma semana? A minha opinião francamente positiva acerca do disco mantém-se e tenho vindo a ganhar algum fascínio pela banda, que é como quem diz pelo seu único membro digno desse nome: Mark Oliver Everett ou E. Vou definitivamente começar a explorar os álbuns de originais e afins, onde não podemos encontrar pérolas como “Get Ur Freak On” ou “Climbing To The Moon” em versão remisturada por Jon Brion.
O disco gravado ao vivo no Town Hall de Nova Iorque, por exemplo, tem a particularidade de estar mergulhado em maravilhosos arranjos de cordas. E reparem como estou confiante no resultado final apesar de ainda não o ter ouvido. Este entusiasmo todo deve-se somente a “Dirty Girl”. Normalmente, a música seria suficiente para que esta canção fosse referida por aqui mas a referência passa a ser obrigatória quando me chega uma letra tão deliciosamente simples como esta.
14-07-2008 2 comentários
Alive and rocking

Neil Young é uma lenda e não é qualquer um que atinge esse estatuto. No caso dele, 40 anos de música de referência na mistura muito americana entre rock, country e folk (e isto é só a parte grande do bolo) e uma capacidade para se manter em grande forma são apenas dois dos motivos.
Ontem, no Alive, Neil Young foi excelente. Imagino que seja assim em todos os seus outros concertos, o que só contribui para o seu estatuto. Para mim, que conheço muito pouco da obra dele, não podia haver melhor showcase.
Encheu aquele palco com a guitarra, os solos intermináveis, os refrões cheios de força e um alinhamento excelente. Acho que acabei de dizer quase tudo sobre o concerto na frase anterior. Claro que também houve espaço para respirar com a melancolia de “Oh Lonesome Me” (que não é de Young mas é como se fosse) e a solenidade de “Mother Earth (Natural Anthem)”… mas a maior parte das duas horas de concerto foi preenchida com muito barulho de guitarra.
O final, esse, foi gigante, com direito a cover dos Beatles e tudo: “A Day In The Life” encerrou o concerto da melhor forma. Um concerto digno de uma lenda.
E isto de ver duas lendas em dois dias seguidos dá para fazer alguma análise: Neil Young sua para dar um grande concerto, parte cordas da guitarra e dá tudo o que tem, incluindo os seus maiores êxitos; Bob Dylan é um velho antipático que faz do público gato-sapato e que decide ignorar quase 50 anos da melhor música que foi feita. Ambos os métodos fazem parte das respectivas lendas, o que torna tudo muito mais interessante.
O público tende a gostar mais do esforço que da antipatia e até se percebe porquê. Mas isso não interessa nada. A música é boa e vale por si em ambos os casos; o resto é bónus. Bob Dylan dá-nos mau-feitio. Ontem, Neil Young deu-nos um termo de comparação.
13-07-2008 Sem comentários
Bob Dylan doesn’t care about Portuguese people

Ontem à noite vi o maior nome de sempre da música popular ao vivo. E se pensam que estou a falar dos Within Temptaion, então este blog não é para vocês.
Bob Dylan é o tipo mais seco e antipático em palco que já se viu. Pensava que o J. Mascis dos Dinosaur Jr. tinha levado para casa esse prémio (em Paredes de Coura, no ano passado, fez um adeus com a mão na altura de sair de palco e pouco mais) mas ainda estava para chegar a noite de ontem.
Ele não tocou quase nenhum grande êxito – mas fez-nos o favor de fechar com “Like a Rolling Stone” – e não falou entre músicas. Antes da última música, disse umas coisas praticamente ininteligíveis (vá, apresentou a banda) e foi isso. No final, o “agradecimento” foi ficar de pé com o resto da banda durante uns 20 ou 30 segundos. Não, não falta nenhuma descrição: foi aquilo (sem gestos, sorrisos ou qualquer coisa minimamente amigável).
Esta conversa toda serve para dizer que adorei o concerto. O tipo dá-se ao luxo de não tocar quase nada que a generalidade do público conheça (como já disse, tenho a última compilação dele – que tem 51 músicas – e tenho ideia de ter reconhecido duas ou três músicas… mas também pode ser problema meu), o que até é compreensível por uma questão de sanidade mental (dele). Ou acham que tocar as mesmas músicas durante quase 50 anos é bom para alguém? De qualquer forma, deixou-me rendido. O seu rock’n'roll de histórias e harmónica é das coisas mais irresistíveis que surgiram no século XX.
12-07-2008 7 comentários
Alive and kicking

O Alive começou ontem e começou bem. Não para a organização, que é das mais frágeis que apanhei em eventos deste tamanho, mas para mim, que gostei da música durante grande parte do tempo. Cheguei relativamente cedo, antes das 18h, mas só consegui entrar no recinto pelas 18h30. O concerto dos Vampire Weekend começava Às 18h50.
Vampire Weekend
Avassaladores. A ideia de os pôr a tocar naquele Metro On Stage (tenda electrónica que durante o dia é palco secundário) não foi propriamente das mais brilhantes mas, ainda assim, o concerto foi suficientemente bom para que isso deixasse de ser importante. Correram o seu álbum de estreia de fio a pavio (não estou a ser rigoroso), tocaram uma coisinha nova e acabaram por me fazer rever o que tinha planeado inicialmente: ver um pouco do concerto deles e depois saltar para ver um pouco do de Spiritualized. Pois bem, vi o concerto todo e não posso dizer que esteja arrependido. Foi um dos melhores momentos do dia.
Spiritualized
Quando os Vampire Weekend saíram de palco, acelerei para o palco principal para tentar ver um pouco do concerto de Spiritualized. Não deu para muito. Estive lá durante cinco minutos e depois voltei ao secundário para ver os MGMT.
MGMT
Era uma das que mais queria ver ontem. Pois bem, não podia ter corrido melhor. Não vi nada. Porquê? Por causa da fantástica conjugação entre a tal sobreposição de horários que referi ontem e o atraso da banda na hora de entrar em palco. Tenho pena mas não muita. É que já me chegaram uns quantos relatos de desilusão, entre os quais este por escrito. Ainda bem, então.
The National
Eram a minha prioridade máxima. Não podia ser tão bom como na Aula Magna e não foi. The National de dia, no meio de uma line-up muito mais barulhenta do que eles (o que significa um público possivelmente menos disponível), com um alinhamento mais curto e a tocarem ao ar livre… não é a mesma coisa. Para mim, a música pesa sempre um pouco: porque são uma das minhas bandas favoritas e porque as músicas são brilhantes, é difícil não gostar de os ouvir. Ainda assim, percebo que os tenham achado apagados (basta relativizar).
Gogol Bordello
A esta altura, já me tinha deixado das caminhadas até ao palco secundário… mas estava na hora de jantar. Gogol Bordello está visto e semi-aprovado desde o ano passado em Paredes de Coura. São uma banda de festival: fazem saltar, nunca se cansam, puxam pelo público e o público gosta deles. Eu fui jantar e não me arrependo. É que os Gogol Bordello são sempre a mesma coisa (o que para quem gosta muito até é porreiro).
The Hives
Mais uma banda relativamente à qual tinha enormes expectativas. E cumpriram competentemente aquilo que esperava deles. Energia, energia, energia, um pingo de arrogância e outro de presunção fizeram de Pelle Almqvist, o vocalista, a verdadeira estrela do rock’n’roll da noite. E era só isso que ele queria. Já nós, queríamos boa música e entretenimento do melhor e foi exactamente isso que os The Hives nos deram. É justo.
Rage Against The Machine
Esta é uma daquelas bandas que não me diz muito. OK, são clássicos, são referências de uma geração e tudo o resto. Essa coisa da geração fez-me sentir um tanto ou quanto voyeur… mas gostei muito. Foi o primeiro concerto do dia sem problemas de som e foi definitivamente o mais explosivo. Aquela hora e pouco de hinos de protesto, de música anti-sistema (até “A Internacional” se ouviu!) e de grandes êxitos foi muito, muito boa. No final, notava-se uma espécie de alívio duplo nalgumas pessoas da audiência: por um lado, eles regressaram em grande; por outro, os Audioslave já lá vão.
Para mim, os restantes dias do festival vão ser tão pacíficos quanto possível. É que o meu interesse vai muito pouco além de Bob Dylan e Neil Young. Mas talvez haja surpresas.
11-07-2008 6 comentários
Marketing de bolso

A Marketeer de Julho traz um artigo onde é feito um ponto de situação sobre a indústria da música. O autor é Sérgio Gonçalves, CMO e sócio internacional da Central Musical. O texto, esse, é um perda de tempo.
Lugares comuns, auto-promoção, erros incompreensíveis e conversa da treta é o que vão encontrar se puserem os olhos neste artigo. Ficarão a saber, entre outras coisas, que o DRM “está a ser abandonado em favor do MP3″ (hã?), que a Central Musical é “um canal inovador para a promoção, através da internet, de artistas, salas de espectáculo, editoras, marcas e consumidores de música” (está bem), que o merchandising é muito bom para os artistas e que os concertos nos sites são a melhor invenção desde a roda.
Curiosamente, nunca tinha ouvido falar da Central Musical. Belo marketing.
10-07-2008 7 comentários
Os The National e os outros
Amanhã, é mais ou menos assim que vou abordar os concertos do Alive: os The National são a minha principal prioridade; os outros, logo vejo como é que me arranjo para ver os concertos deles.
Tenho pena que os MGMT sofram com isto (porque o concerto deles começa 20 minutos antes do dos The National, o que significa que haverá ali uma sobreposição) mas não há nada a fazer. Depois, vêm The Hives, MGMT, Vampire Weekend, Spiritualized, Cansei de Ser Sexy e Rage Against the Machine. Quanto ao resto, ou já vi ao vivo, ou não tenho grandes expectativas.
Apesar de ter visto o óptimo concerto que os The National deram na Aula Magna em Maio, pareceu-me bem repetir a dose. Espero ansiosamente por mais uma hora e pouco de Boxer, Alligator e umas migalhas pré-históricas. Já sei que vão conquistar-me novamente com as guitarras bipolares e com a voz grave de Matt Berninger. Já sei que vão conquistar-me novamente com as músicas. E também sei que vou ficar a pensar (como fiquei em Maio) que só faltaram aquelas três ou quatro canções que tornariam o concerto perfeito.
“Lucky You”, aqui em vídeo oficioso, será certamente uma delas:
09-07-2008 6 comentários
Eles dizem que são a melhor banda do mundo
Estou arrependido de não os ter ido ver ao Coliseu há um par de meses. Agora, no Alive, sei que não vai ser a mesma coisa (concerto em sala e em nome próprio trumps festival) mas pronto, fico-me pelo mal menor.
The Hives é uma daquelas bandas a que as pessoas não me associam (incluam-me nesse grupo de pessoas, já agora). Talvez por serem demasiado animados ou algo do género. Ainda assim, nos últimos tempos tenho vindo a adquirir um certo gosto em ouvi-los, seja pela facilidade com que as músicas entram no ouvido (e a esse nível posso agradecer à estupidamente boa “Dead Quote Olympics”, do Tyranossaurs Hives), pela energia contagiante (“Try It Again”, do mais recente The Black and White Album) ou pelas duas razões ao mesmo tempo.
Estou à espera de um grande concerto na quinta-feira (dia que será certamente cheio de bons concertos), apesar de “saber” que não vão tocar algumas das minhas favoritas (que se concentram sobretudo nos últimos dois álbuns, que são os que conheço melhor). Ainda assim, não poderá ser mau. Barulhento e cansativo (no bom sentido), sim. Nunca mau. E não, não são definitivamente a melhor banda do mundo… mas um pouco de auto-estima nunca fez mal a ninguém.
“Tick Tick Boom”, o primeiro single do The Black and White Album, é algo deste género:
08-07-2008 6 comentários
Novo CEO da EMI: confie no rosa, esqueça as nódoas
A EMI anunciou hoje o nome do seu novo CEO. Elio Leoni-Sceti, de 42 anos, era, até há pouco tempo, vice-presidente executivo da Reckitt Benckiser para a Europa. Não faz muito sentido, pois não? Num momento, contribuímos para o crescimento de produtos como Air Wick ou o fascinante Vanish (“confie no rosa, esqueça as nódoas”, pá!); no outro, estamos no cargo executivo mais elevado de um dos principais grupos internacionais na área da música.
Não tenho problemas com o facto de Leoni-Sceti não ter qualquer tipo de experiência profissional na indústria discográfica. A este nível, creio que conhecer o mercado e todas as suas especificidades faz parte do trabalho e, apesar de não ser propriamente um especialista, admito que, a este nível, as coisas funcionam de forma semelhante em diferentes mercados. O sujeito que se estreia no mercado faz pela vidinha e trata de se inteirar do que por aí se passa. Com sorte, ainda acrescenta uma visão diferente, mais fresca. Nada mais simples. Parto do princípio de que o novo CEO da EMI não é, portanto, um vendedor de banha da cobra.
Há, no entanto, algo que me faz desconfiar: o entusiasmo demonstrado no comunicado da EMI (e sim, eu sei que muito provavelmente lhe puseram aquelas palavras na boca… mas é certo que o texto lhe passou pelas mãos).
This is a hugely exciting time for the music business and for EMI. EMI is the world’s longest established music company operating in over 40 markets globally with a roster of some of the most successful artists in the world. (…) The potential that can be realised in this industry is massive, music consumption is growing more than ever across the world and I cannot wait to get started and to working with EMI’s artists and employees.
Estou certo que sete anos muito bem sucedidos na Reckitt fizeram de Elio Leoni-Sceti um homem muito ambicioso. No entanto, é com muito cepticismo que vejo este entusiasmo sem que haja um caminho mais ou menos definido no sector. O novo CEO da EMI fala dos artistas de grande sucesso de há quarenta anos atrás e dos da actualidade, dois pontos com que as editoras têm tido dificuldade em lidar. Por um lado, há quarenta anos não andavam cheios de problemas em fazer dinheiro. Por outro, agora não é preciso vender assim tanto para ser um sucesso de vendas.
A EMI fez algumas apostas interessantes, sobretudo na área digital, mas isto agora deixa-me de pé atrás. Estava à espera de um cínico. Mais uma vez, faço um disclaimer para dizer que não espero que o CEO de uma multinacional com um volume de negócios de cerca de 3 mil milhões de euros (e, em 2007, com um prejuízo perto de 400 milhões) seja ingénuo, como é óbvio. Mas esperava uma atitude visivelmente mais cínica, crítica e determinada. A ver vamos.
07-07-2008 7 comentários
A música do Verão é dos MGMT
Apesar de ainda não ter comprado bilhete, já estou em contagem decrescente para o Alive. Não comprei bilhete porque ainda não decidi se vou só ao primeiro dia ou se vou aos três. Será que o Bob Dylan é suficiente? Estou inclinado para responder “sim”. Espero que não esgote antes de conseguir comprar bilhete… porque seria bastante ridículo andar para aqui a escrever coisas sobre o Alive sem conseguir lá pôr os pés depois.
Passando à frente, eis um dos grandes motivos que me levam ao festival: os MGMT, uma das sensações pop do momento. Todos os anos aparecem bandas que nos impressionam por diferentes motivos. A mim, estes fazem-no porque entram facilmente no ouvido sem que isso signifique obrigatoriamente leviandade. Têm uns quantos singles gigantes… mas Oracular Spectacular não é, no seu todo, um álbum para se deixar passar ao lado.
Não há-de ser novidade para muitos, mas aqui têm “Time to Pretend”, a música com que os MGMT me agarraram.
07-07-2008 6 comentários
