Música, indústria e tendências.

Posts de — Agosto 2008

Um vídeo e um desabafo sobre The R.G.Morrison

É certo que a faixa escondida no final do álbum é a melhor das nove que constituem Learning About Loathing, o álbum de The R.G.Morrison de que falei há alguns dias. Outra coisa certa é que ninguém minimamente são faz uma coisa destas.

É a vida.

Ainda assim, vale a pena ouvir uma das melhores músicas do álbum – e a que lhe empresta o título – e ver o respectivo vídeo.

30-08-2008   Sem comentários

A experiência Broken Social Scene

Continuo com os exemplos sobre a experiência, posts fáceis de escrever mas muito difíceis de publicar.

Broken Social Scene

Broken Social Scene

A minha segunda banda favorita. Só comecei a ouvi-los no início de 2006, já depois de terem lançado o último álbum (o homónimo Broken Social Scene, de 2005). Conquistaram-me com “Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)” e com as letras meio porcas, meio adoráveis de “Lover’s Spit” e, claro, de “It’s All Gonna Break”. Conquistaram-me com o número de pessoas em palco e com os pormenores no meio da confusão que é o som dos Broken Social Scene.

Depois, é:

- a expectativa pela edição de 2006 de Paredes de Coura;

- seis da manhã, eu sozinho na tenda, sirenes de carros de bombeiros, um frio desgraçado e o Kevin Drew a fazer o soundcheck com “Superconnected” acompanhado de uma guitarra acústica no palco principal de Paredes;

- a primeira vez que ouvi o álbum a solo do Kevin Drew (que conta como Broken Social Scene – se não acreditam, ouçam!), cheio de sono, tendo conseguido aguentar até à sétima faixa do CD… mas maravilhado;

- Lisa Lobsinger a cantar “Anthems For a Seventeen Year-Old Girl”;

- a apoteose no final de “Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)” no concerto de Paredes de Coura;

- dois álbuns quase perfeitos e projectos paralelos muito interessantes.

A qualidade mantém-se como parte fundamental da experiência mas há também uma componente pouco racional muito forte. Só mais um exemplo e arrumo o assunto, prometo.

29-08-2008   2 comentários

A experiência The National

Há umas semanas falei um pouco sobre a experiência. Na altura prometi exemplos meus. Começo por abordar uma das minhas bandas preferidas (como poderão, de resto, comprovar pelo número de vezes que a referi aqui). É o primeiro de três exemplos.

The National ao vivo no Manta, em Guimarães

The National

É o caso mais fresco – comecei a ouvi-los em meados do ano passado – e, portanto, uma bela forma de introduzir o assunto. A bipolaridade entre o tom intimista e os berros descontrolados do vocalista Matt Berninger, as letras desconcertantes, as melodias simples mas fenomenais e uma secção rítmica fantástica foram a porta de entrada. Isso, uma voz tão grave quanto possível e “Fake Empire”.

Depois disto, The National é:

- o refrão de “Lit Up” pela primeira vez num banco de autocarro depois de ter ido entrevistar a directora de marketing da Universal Music a propósito do meu trabalho de final de curso;

- “Apartment Story”, “The Geese of Beverly Road”, “Mr. November”, “Lucky You”, “About Today”, “Murder Me Rachel”, “Wasp Nest”, “Daughters of the Soho Riots” e “Mistaken for Strangers” a tocarem repetidamente no iTunes, no iPod Shuffle – depois no Classic – e na aparelhagem;

- Matt Berninger aos berros em cima de umas quantas cadeiras da Aula Magna no final de um concerto em que todas as pessoas sabiam todas as letras;

- dois pares de gémeos em palco;

- um concerto inesquecível em Guimarães (às 22 horas, depois de ter saído de Lisboa às 17);

- o Aaron Dessner a autografar-me o bilhete e a atirar-se a uma amiga minha;

- comprar seis CDs de uma vez na Amazon.

Resumindo, a qualidade intrínseca, o desempenho ao vivo e a atitude deles foram elementos que contribuíram decisivamente para a minha fidelização (tendo em conta o dinheiro que já gastei com eles, acho que posso afirmar com segurança que estou no grupo dos fiéis). A experiência The National, no meu caso, é isto. Se somarmos mais uns casos semelhantes ao meu, a coisa começa a ganhar forma para eles.

28-08-2008   6 comentários

The Stills: um álbum giro (e é só)

The Stills - Oceans Will RiseQuando falei de “Being Here”, o primeiro single do novo álbum dos The Stills, disse que estava a arriscar.

Arrisquei porque não conhecia nada para além da música… e a música nem sequer me impressionou especialmente. É gira, é verdade… mas parece que lhe falta qualquer coisa.

Agora que já ouvi o álbum, posso dizer-vos que segue mais ou menos o mesmo caminho.

Oceans Will Rise é muito radio-friendly, o que faz com que também seja amigo dos ouvidos. Tem bons momentos: o início do refrão de “Snow in California” é uma passagem interessante, “Panic” está interessante e bem produzida (imaginem “Blue Light” dos Bloc Party… mas sem meter nojo) e “Rooibos/Palm Wine Drinkard” é, muito provavelmente, o ponto alto do álbum em volume, caos e qualidade.

O resto do álbum, por melhor que soe, não é muito substancial. Ouçam em fundo enquanto trabalham no computador ou em viagem (é fresquinho e uma boa banda-sonora para levar com vento na cara), se quiserem. Vejam os The Stills ao vivo, que talvez valha a pena. Mas Oceans Will Rise não é o álbum de uma vida.

26-08-2008   2 comentários

Descobrir sem querer: The R.G.Morrison

The R.G.Morrison - Learning About LoathingAntes de mais nada, uma pouco de contexto:

Assisti, em Guimarães, a um dos melhores concertos do ano. Dois dias depois de ver os The National pela terceira vez em pouco mais de dois meses, fui completar a minha colecção de discos deles à Amazon. Comprei dois álbuns, dois EPs e dois singles. Um deles ainda está para chegar. O outro foi comprado no marketplace, que é onde se arranjam verdadeiras pechinchas por aqueles lados. Lit Up, o tal single, foi o primeiro a chegar-me às mãos. Mas vinha com uma surpresa.

Metidos na caixa juntamente com o CD single de uma das melhores músicas de Alligator estavam uma capa de plástico, um pequeníssimo booklet e um CD intitulado Learning About Loathing, editado em 2005 por uns tais The R.G.Morrison.

Poderia ter ficado desagradado mas como até gosto de música de borla… lá fui ouvir o álbum. Sobre a banda e o tipo que dá nome à banda, sei muito pouco. Tem MySpace e tem editora (aliás, R.G. Morrison parece mesmo ser um dos responsáveis pela editora). E é isto.

Quanto à música propriamente dita, está muito dentro do género que me tem dominado nos últimos tempos: folk (e derivados). Muito, muito lo-fi, já agora. É um bom álbum.

“Learning About Loathing”, o tema de abertura, “Ruder Me” e a canção escondida no final do disco são bons exemplos do som dos The R.G.Morrison; guitarra, piano e voz são o núcleo duro, sendo que de tempos a tempos vão surgindo arranjos envolventes e feitos com bom gosto.

À cabeça, vêm-me nomes como Nick Drake e Scott Matthews… por causa da voz atordoante de R.G. e da forma como canta. Ainda assim, continuo a preferir os primeiros dois.

Enfim, foi uma boa descoberta. Ainda não tive tempo de explorar as novidades da editora… mas parece ser um cantinho interessante. Vale a pena ficarmos atentos aos lançamentos deles.

25-08-2008   1 comentário

Dar valor ao álbum: sinergias

2 + 2 = 5

A indústria discográfica tem reservas quanto a determinado tipo de acordos que até poderiam ser boas opções. Uma das tendências que desapareceu, por exemplo, foi a do apoio activo à divulgação de concertos e digressões dos seus artistas. O facto de as editoras terem deixado de apoiar as promotoras de concertos nesta área foi uma espécie de demissão, de desresponsabilização. É certo que as editoras não ganhavam directamente pelo apoio que davam mas é óbvio que ganhavam alguma coisa.

Percebo as reservas. Ainda assim, seria interessante que existisse uma procura de alternativas mais viáveis e atractivas. É sabido que as editoras andam a tentar controlar agenciamento, merchandising e afins para além do habitual contrato discográfico, pelo menos no que aos artistas novos diz respeito. No caso dos outros, a solução poderia ser o estabelecimento de verdadeiras parcerias de médio prazo com outros agentes da música ou de outra área que faça sentido. Teriam de ser parcerias naturais, claro. Por exemplo, se a empresa faz agenciamento de artistas, não faz sentido contribuir por outro lado.

Para além disto, há os projectos multimédia. No caso de algumas das majors, é tão fácil de fazer certas coisas resultarem que é quase ultrajante. Produção e transmissão televisiva, rádios, produção de cinema e edição discográfica são comummente partes de um mesmo bolo corporativo. Isto acontece com a Universal Music, por exemplo, mas também está a começar a acontecer com a Sony, que já detém a ex-SonyBMG na totalidade. A um nível nacional, Floribella e D’zrt são bons exemplos. A música é terrível, como sabem, mas a verdade é que são máquinas de fazer dinheiro. São projectos orquestrados recorrendo à televisão que depois dão o salto para a edição discográfica e que, com promoção em rádio, televisão e outdoors, por exemplo, acabam por ser muito bem sucedidos. Para além disto, acabam a fazer bateladas de dinheiro graças ao merchandising (que, nos casos destinados a um público-alvo infantil como os que referi, inclui tudo e mais um par de botas). A SIC fez isto com a Floribella sobretudo através de parcerias; já o Grupo Media Capital, incluiu diversas empresas suas: TVI, NBP, Farol Música, Media Capital Outdoor (que agora já não faz parte do grupo), Media Capital Rádios e Media Capital Edições. Resultou muito bem em ambos os casos.

Mas será que isto só dá para fazer com música má? Claro que não. Nos Estados Unidos, os milhares e milhares de dólares envolvidos nos negócios entre editoras discográficas e produtoras de televisão para a inclusão de canções em séries provam-no facilmente. Há muita editora independente a jogar este jogo. E rende.

Para além disto, há a Web, onde se começa a ver já algumas iniciativas interessantes, até porque os serviços que vão surgindo, sobretudo os mais pequenos, são muito agressivos comercialmente, o que tem tido bons resultados para eles. Depois há sempre MySpace, Vimeo, Last.fm, Rcrdlbl e outros, que ajudam.

Quando se detém várias empresas nestas áreas, as vantagens são óbvias. Não é obrigatoriamente vantajoso para os nossos ouvidos (pelo menos no caso português)… mas se permitir às editoras ganharem mais uns trocos para depois meterem coisas boas cá fora, não sei se me importo assim tanto. Mas ainda é preciso limar algumas arestas.

24-08-2008   Sem comentários

Esquecido

Ontem mostraram-me esta música. Aparentemente, faz parte da banda sonora do Vanilla Sky (a versão com o Tom Cruise e a Penélope Cruz). Não me recordo de a ouvir, o que é um crime. Quanto à banda, conheço pouco e gosto do que conheço. Aliás, é a única banda associada a um qualquer coisa-core (a Wikipédia utiliza o termo slowcore; o All Music fala em sadcore) de que gosto.

O vídeo é oficioso e interessa pouco para aqui. A música chama-se “Have You Forgotten” e é dos Red House Painters.

22-08-2008   1 comentário

Contagem decrescente para o álbum dos peixe : avião

Já falei aqui dos peixe : avião, a banda de Braga cujo single “A Espera é um Arame” me conquistou à primeira audição há coisa de um mês. O segundo primeiro álbum (continuo sem ter ouvido o primeiro EP) está previsto para 15 de Setembro e eu vou fazendo a contagem decrescente ao som do single e de “Camaleão”, a outra música que a banda disponibilizou para audição no MySpace.

A banda vai apresentar o álbum ao vivo no Theatro Circo de Braga a 13 de Setembro, sendo que passa pelo Porto a 19 de Setembro, por Lisboa (Music Box) a 27 e por Guimarães (Centro Cultural Vila Flor) a 4 de Outubro. Eu quero ver se não perco o concerto de Lisboa.

Agora, para contribuir para o (eventual) hype em torno dos peixe : avião, nada melhor do que colocar aqui o vídeo de “A Espera é um Arame” e esperar que vocês gostem.


21-08-2008   9 comentários

As startups têm destas coisas

O site de partilha de playlists Muxtape está actualmente em baixo enquanto resolve uns problemas com a RIAA. A Pandora, uma das primeiras rádios online centrada nas preferências dos utilizadores, está em risco de se afogar em royalties graças às novas leis norte-americanas.

Uma foto de Andy Armstrong (http://www.flickr.com/photos/andyarmstrong/249081210/)

Quanto ao Muxtape, não há muito a dizer, até porque não há muita informação disponível. Já quanto à Pandora, o mundo dos negócios tem destas coisas. As leis estão a mudar devido a pressão da indústria discográfica? Em parte, sim, certamente. No entanto, é assim que as coisas funcionam. De resto, até a própria indústria discográfica se queixa da mudança que tem vindo a dar-se nas suas principais áreas de negócio. É assim que as coisas funcionam: na pior das hipóteses, a ideia é manter o status quo, nunca piorar.

Aqui não há volta a dar. Ou bem que são apetecíveis, ou bem que não são. O Miguel Caetano fala no exemplo da Last.fm ter sido comprada pela CBS e diz também que a Pandora poderá ter o mesmo destino. Estou certo de que é isso que querem. Entretanto, fazem barulho contra as leis que lhes são prejudiciais ao negócio para ver se se aguentam bem enquanto não aparece quem os leve para outras paragens. Vamos ver é se alguém quer pegar numa empresa cujo serviço principal está completamente indisponível fora dos Estados Unidos e que, ainda por cima, tem dificuldades em fazer frente às suas obrigações legais.

Por outro lado, a RIAA não ganha nada em fomentar este tipo de situações. As suas associadas têm interesse (mesmo que não saibam…) em divulgar a música dos artistas de maneiras diferentes e originais, que causem alguma impressão nas pessoas. A RIAA está a atacá-los um a um. Serviços tão inócuos como o Muxtape ou a Pandora não são propriamente diferentes da rádio mas… quem é que convence a indústria disto?

19-08-2008   Sem comentários

Spiritualized: só agora é que me dei ao trabalho

Spiritualized. O último álbum saiu em Maio deste ano e eu, feito parvo, só agora é que eu pego nele. Podia utilizar o facto de ter ouvido apenas parte de uma música no concerto que eles deram no Alive, mas não seria justo. Acho que foi mais preguiça do que outra coisa. Não volta a acontecer, prometo. Songs in A&E é um grande álbum e só não é mais do que isso porque tem seis interlúdios que o deixam em cacos na parte final.

Aos menos atentos, recomenda-se que leiam a entrevista que o Nuno Galopim fez a Jason Pierce, os Spiritualized (partes um, dois e três). Vale a pena perder 10 minutos.

“Soul On Fire” foi o primeiro single e é um excelente exemplo do que podem encontrar em Songs in A&E. Isto se forem distraídos ou preguiçosos como eu. Porque o mais natural é que já estejam mais do que familiarizados com esta maravilha.

18-08-2008   Sem comentários