Música, indústria e tendências.

Posts de — Agosto 2008

Entrevista com Miguel Caetano, autor do Remixtures – parte 2

Há uns dias, publiquei a primeira parte de uma entrevista com o Miguel Caetano. O resto da conversa está aqui.

Remixtures

Há uma certa tendência para se pensar na música actual como uma espécie de reciclagem do que já foi feito nas últimas décadas e dizer algo como “antigamente é que era” mas a verdade é que ainda há bandas que agarram as pessoas pelos dias que correm. Tens assim alguma coisa “nova” que te ponha a pensar “porra, como é que vivi estes anos todos sem isto?”, ao nível do que dizem e/ou da música que fazem?

A verdade é que estou constantemente a ouvir coisas novas e interessantes que me deixam pura e simplesmente encantado. Foi assim quando ouvi pela primeira vez o Person Pitch do Panda Bear, Let the Blind Lead Those Who Can See but Cannot Feel de Atlas Sound, Alegranza de El Guincho, Weirdo Rippers de No Age, etc. Apesar de nenhum destes álbuns ser uma “reinvenção da roda”, eles incorporam novos elementos a sonoridades já conhecidas e, acima de tudo, combinam influências díspares. De qualquer forma, penso que a música Rock e Pop sempre funcionou assim, através de uma espécie de “canibalização” das fontes anteriores. Neste aspecto, creio que tudo continua como dantes. A grande diferença é que o processo de influências mútuas se intensificou muito mais nos últimos anos, em grande parte graças à Internet, claro. Agora, a exposição a uma vasta gama de sons também faz com que sejamos mais críticos e menos ingénuos do que antigamente.

Festivais. Vais este ano a algum? Costumas ir? O que pensas dos cartazes?

Sinceramente, o programa dos festivais portugueses raramente me interessa porque, regra geral, os promotores costumam trazer sempre bandas ou artistas cujo tempo já passou. O que me interessa no ao vivo e nos concertos é uma intensificação da experiência proporcionada pelos discos e não apenas a celebração de uma nostalgia ou de um ritual saudosista. Não gosto de sair desapontado. Depois, o preço dos bilhetes é caríssimo. ;-)

Esta pergunta quase parece desnecessária mas… música é no CD ou no computador?

Éóbvio que prefiro ouvir música no computador e no formato MP3 com qualidade V0 ou superior. Mas acredito que dentro de alguns anos, a capacidade de armazenamento dos discos rígidos de computadores pessoais e leitores de MP3 seja suficientemente grande para permitir fazer a migração de MP3 para formatos lossless como o FLAC.

Miguel Caetano é o autor do Remixtures, um blog sobre cultura livre.

08-08-2008   Sem comentários

Os Tindersticks em 1992 eram assim

Tindersticks - TindersticksLembram-se do que disse há uns tempos sobre ser um tipo cheio de falhas relativamente à música? Ele é os Eels mais de dez anos depois, os Low quase completamente às escuras e agora… Tindersticks. O facto de estarem constantemente a comparar os The National com eles foi um dos principais motivos, é certo. De resto, é o habitual: uma banda com mais de uma década de nome feito na música e eu não conhecia nada. E continuo sem conhecer o resto, por enquanto. Teria sido bom aproveitar a passagem deles pelo Sudoeste… mas fica para a próxima.

Já passaram algumas semanas desde que comprei uma edição remasterizada (de 2004, com um CD extra) do primeiro álbum deles mas só agora passei conveniente da primeira música. Não foi por nenhum motivo especial. “Nectar” é uma boa forma de começar um álbum… mas, por este ou aquele motivo, acabei por ter de parar o CD a meio de todas as vezes que comecei a ouvi-lo.

Desta vez, não. Deixei-me levar pelo som trôpego dos Tindersticks, pelas melodias nocturnas que povoam o álbum e pela voz grave e descuidada de Stuart Staples (que é, de facto, muito parecida com a de Matt Berninger, frontman dos The National, mas também com a de Mark Lanegan, por exemplo).

Não é um álbum muito óbvio. É capaz de ser difícil encontrar os pormenores deliciosos que se escondem por trás dos dominantes baixo e bateria. É já a meio de “Jism”, por exemplo, que nos apercebemos da revolução que vai naquela canção. O que é, de resto, uma constante em todo o álbum. Começam todas como se fossem pôr-nos a dormir (literalmente, não como se faz aos cãezinhos) mas quando damos por nós, há melodias minimamente solarengas, uma guitarra que a espaços ganha destaque e uma voz que, afinal, não é tão monocórdica como parecia momentos antes. E as letras completam brilhantemente o quadro.

Tindersticks raramente deixa, ao longo das suas 21 faixas, de ser um álbum calmo à superfície (é possível que “Her” seja a excepção). Por outro lado, as letras de Stuart Staples encostam-nos a um canto de tão simples e directas que são. De resto, por baixo da camada calma e do forte texto, o álbum de estreia dos Tindersticks tem uma característica fundamental: é inacreditavelmente denso. Pede álcool e tempo livre.

07-08-2008   4 comentários

A letra P

Os Portishead demoraram mas lançaram um bom terceiro álbum. Passaram nove anos desde que decidiram parar e três desde o regresso oficial em 2005. Third é Portishead com um upgrade em cima, como se tivessem continuado a editar durante os últimos anos e este fosse o passo natural para um sétimo álbum ou algo do género. Apesar de o som de Third pouco ter a ver com o dos dois primeiros álbuns dos Portishead, assenta-lhes bem. Assim, aquilo que é uma grande diferença acaba por não ser tão desconfortável e estranha quanto seria de esperar. O que é certo é que continuam muito bons. E a voz de Beth Gibbons ainda anda muito perto da perfeição… mas isto não é propriamente uma novidade.

“The Rip”, possivelmente a mais convencional de Third, é o espelho perfeito do tal passo natural. Cresce e cresce e cresce.

06-08-2008   4 comentários

A Sony comprou a outra metade da SonyBMG

SonyBMGAs negociações já corriam há algum tempo mas agora é oficial: a Sony comprou os 50 por cento da joint venture SonyBMG que pertenciam à Bertelsmann.

Na prática, isto reflecte-se numa maior facilidade por parte da Sony em integrar a música em projectos multimédia de entretenimento. Isto porque a Bertelsmann era, de certa forma, um entrave à realização de certas iniciativas porque não ganhava muito com isso. É que as outras divisões da Sony não tinham qualquer ligação à Bertelsmann; assim, imagino que as negociações relativas a estes projectos fossem difíceis de concluir agradavelmente.

Agora, a Sony viu-se livre da Bertelsmann nesse sentido, mas teve de ceder em alguns pontos. Para além do pagamento de um valor entre 770 e 840 milhões de euros, o negócio prevê acordos de fabrico e distribuição internacionais entre a Sony e a Arvato Digital Services GmbH, uma empresa da Bertelsmann. Outro aspecto deste negócio é que a Bertelsmann ficará com alguns activos do catálogo europeu da SonyBMG, o que quer que isso seja…

Em suma, parece-me um bom negócio para a Sony, que terá muito menos atrito na hora de desenvolver projectos que envolvam as suas divisões de música, cinema, televisão e videojogos… e isto é só ao nível dos conteúdos. Quem sabe se televisores, aparelhagens, leitores de MP3 e afins não acabam por ganhar também com este negócio. Só precisam de ideias.

A questão dos “activos do catálogo europeu” da SonyBMG deixa-me em dúvida quanto à situação portuguesa… mas não espero ter novidades tão cedo. Vamos esperar por novidades, então.

05-08-2008   1 comentário

Entrevista com Miguel Caetano, autor do Remixtures – parte 1

Há umas semanas, estava pelo Twitter e o Miguel Caetano colocou um ou dois posts sobre os seus álbuns favoritos de 2008. Achei curioso porque, no Remixtures, não costuma falar da música propriamente dita, mas de P2P, DRM e afins. Foi então que pensei numa entrevista com o Miguel que não envolvesse os temas habituais do Remixtures e ele aceitou. Este é o primeiro de dois posts com as respostas do Miguel às minhas perguntas. O segundo aparecerá por aqui lá para sexta-feira.

Remixtures

Há algum artista ou banda que tenha influenciado definitivamente as tuas opiniões e atitudes através da música?

Bem, houve várias bandas mas aquela que me influenciou mais foram de facto os Velvet Underground, banda que eu descobri há mais de 15 anos, quando ainda andava no liceu. Fascinou-me a atitude, o espírito, as letras e, claro, a música – tudo isso remetia para um universo traste/underground do círculo artístico de Nova Iorque dos anos 60 constituído por pervertidos, tarados, junkies, lésbicas, gays, artistas falhados e todo o género de aves raras da espécie humana. É claro que qualquer miúdo de subúrbio armado em indie e com pretensões intelectualóides se deixaria seduzir por esse submundo completamente desligado da sua realidade quotidiana circundante composta por tipos saídos do Beavis & Butthead ou songas mongas. E eu não queria ser um songa monga como os outros. Aliás, acho que nunca fui. Por outro lado, sendo eu um indie armado em intelectual com um bom bocado de peso a mais (que hoje já perdi, felizmente :-) , sentia-me bastante rejeitado e incompreendido por todos, mas também não me preocupava muito com isso porque sempre tentei criar o meu universo pessoal.

Sendo os VU um bando de pessoas que faziam questão de rejeitarem o mainstream e a sociedade, eu identificava-me plenamente com aquilo tudo. Eles também não se enquadravam e no entanto nos anos subsequentes ao seu fim eles acabaram por influenciar centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Eles mostravam que os freaks tinham todo o direito a ser aquilo que queriam ser. Há uma citação da crítica de música Ellen Willis que diz tudo a esse respeito:

The Velvets were not nihilists but moralists. In their universe nihilism regularly appears as a vivid but unholy temptation, love and its attendant vulnerability as scary and poignant imperatives. Though Lou Reed rejected optimism, he was enough of his time to crave transcendence. And finally– as “Rock And Roll” makes explicit– the Velvets’ use of a mass art form was a metaphor for transcendence, for connection, for resistance to solipsism and despair.

No fundo, é isso. Os discos deles provam que a música pode ser a melhor arma de resistência ao quotidiano, uma fuga para a depressão, para todas as tendências suicidas, para todas as porcarias que temos que aturar no dia-a-dia. E que existe espaço para todas as diferenças por mais diferente que sejamos mas que cabe a nós trilhar o nosso caminho, nem que tenhamos que lutar muito. Nos Velvet Underground, a arte coexiste numa simetria perfeita com a vida. A arte torna-se uma explicação ou justificação para a vida e é indissociável dela. Não é apenas um mero passatempo para entreter as massas. Nesse sentido, eles colocaram em prática as ideias defendidas desde há alguns anos antes pelos situacionistas em França. Eles sempre se estiveram nas tintas para o sucesso, para o dinheiro ou para os modismos. Mas foram a banda mais influente de sempre justamente porque não tinham uma mensagem política, porque não faziam propaganda. A sua política era viver a vida intensamente e não tramar nem se deixar ser tramado por ninguém.

E depois a leitura do livro do João Lisboa sobre os Velvet publicado por essa altura também me marcou muito. Porque no fundo, a história dos Velvet é quase que o argumento de um filme, com o Andy Warhol, a Nico, a Edie Sedgewick, o Gerard Malanga, o Paul Morrison e todas as intringas, as desavenças, os casos amorosos, as separações. Outra coisa interessante é que eles não faziam propriamente música de vanguarda, mas também não eram Pop, apesar de músicas como “There She Goes Again”. Eles gozavam com os estereótipos e os preconceitos e assimilavam e combinavam tudo, desde Terry Riley a Bo Diddley.

No fim de contas, acho que ouvir músicas como “Heroin”, “Pale Blue Eyes”, “Stephanie Says”, “Sunday Morning” por aquela altura e naquela idade serviu como um antídoto perfeito para muitos eventuais dissabores futuros, para ter uma visão menos ingénua mas ao mesmo tempo mais esperançosa da vida. Os Velvet foram para mim uma anti-filosofia de vida precisamente porque eles romperam com todos os falsos profetas, gurus, religiões e fetichismos. Ensinaram-me a desconfiar das imagens e das falsas aparências.

Miguel Caetano é o autor do Remixtures, um blog sobre cultura livre.

05-08-2008   6 comentários

Outros tempos

Em Paredes de Coura, no ano passado, tive apenas uma pequena (mas gigante) desilusão. Os Sonic Youth, que são uma das bandas que mais gostei de ver ao vivo, deram um concerto fenomenal que passou por uma série de álbuns, desde Confusion is Sex, o mais antigo, até Rather Ripped, o mais recente, passando pelos outros obrigatórios do costume. A desilusão? Deixaram ficar o maior trunfo no bolso.

Não tocaram “Teen Age Riot” mas deviam definitivamente tê-lo feito (até porque era a que mais queria ouvir…). A ver se nos sai a sorte grande da próxima vez que por cá passarem. Enquanto isso não acontece, regressemos até 1988. Eram outros tempos, aqueles em que os Sonic Youth idealizavam um mundo em que o J Mascis era presidente dos Estados Unidos da América.

04-08-2008   3 comentários

O CMO da Central Musical leu o meu artigo e não gostou

Sérgio Gonçalves, CMO da Central Musical, encontrou o meu post sobre o texto dele na Marketeer de Julho e teceu alguns comentários:

Caro Filipe,

Sim, as editoras estão a adoptar o MP3 como standard. Não é preciso ser muito informado para comprovar o facto.

O que é banal para si não é para a esmagadora maioria das pessoas. O artigo não é escrito para um “especialista”.

Fico contente que, pelo meno agora, já conheça a Central Musical.

Quais são os erros “inadmissíveis” e os lugares comuns?

A Central Musical tenta ser uma solução. Pode não acreditar que o merchandising e os concertos sejam saída para artistas. Que isso seja “inventar a roda” é que não se percebe. Giro é afirmar que vai a concertos e compra umas t-shits de bandas..

Gostava também de perceber o seu curriculum na industria musical. Pode ser que tenhamos muito a aprender com a sua experiência.

Obrigado pelo comentário,

Sérgio

1. O Sérgio parece não perceber que não se pode adoptar o MP3 em detrimento do DRM. Digital Rights Management é o nome dado ao conjunto das tecnologias de controlo de acesso, cópia e conversão que habitualmente encontramos em alguma da música que compramos. MP3 é um formato de áudio digital comprimido. Aqui há duas questões: uma de Português e outra de perspectivas. A de Português impede-me de compreender que um conjunto de tecnologias seja substituído por um formato. A de perspectivas, diz-me que o MP3 está longe de ser um padrão nos downloads. Mas espero que a tendência seja essa, isso sim.

2. Quanto ao merchandising e aos concertos, concordo perfeitamente. Não acho é que seja novidade nenhuma; desde há muito tempo que assim é para a maior parte dos artistas. Depois o Sérgio faz algumas confusões: eu ironizei sobre os concertos no site serem a melhor invenção desde a roda, e não em “inventar a roda”. A verdade é que a transmissão de concertos em sites está longe de ser revolucionária. A roda, por outro lado, foi uma das melhores invenções de sempre. Já tem uns milhares de anos mas ainda é relativamente útil.

3. O Sérgio teve presença de espírito para se informar sobre mim antes de comentar, dizendo que compro t-shirts e vou a concertos. É bem verdade. Mas depois escreve ironicamente sobre o meu currículo na indústria musical, que não existe, como poderão comprovar se explorarem um pouco melhor. Não sou “especialista” (vamos manter as aspas, está bem?); sou, isso sim, um tipo que gosta de música e que partilha opiniões sobre a indústria, o marketing, a utilização da Web e as tendências de uma área que tem mudado muito nos últimos anos.

Deixem-me esclarecer uma coisa: não tenho nada contra o negócio da Central Musical. Achei o texto da Marketeer fraquinho e a minha posterior visita ao site não me deixou minimamente entusiasmado com o serviço prometido. Só isso.

É que eu sou mais de ir a concertos e comprar t-shirts.

03-08-2008   11 comentários

Falta de respeito pelas estações do ano

Kevin Drew

O Kevin Drew é das melhores coisas que aconteceu à música nos últimos dez anos. Criativo, prolífico e extremanente talentoso, este tipo tem feito coisas fantásticas à frente dos Broken Social Scene e, de há um ano para cá, também numa espécie de carreira a solo. Espécie porque dificilmente se pode considerar que chamar os colegas todos da banda para tocar com ele em Spirit If… é a solo. Acontece o mesmo, de resto, com o Brendan Canning.

Foi com este espírito que encontrei, quase por sorte, uma música nova sobre a qual o Pitchfork escreveu umas linhas. Chama-se “Summer Time Dues” e é uma música de Inverno. Começa com ele a tossir, segundos antes de soarem as primeiras notas na guitarra acústica e de a voz gigante do costume começar a fazer sentido. Se a tosse não vos convencer de que esta é uma música de Inverno, tentem ouvir a chuva lá ao fundo.

Melodia triste, refrão repetitivo e um muito leve crescendo ao longo de toda a música fazem de “Summer Time Dues” um momento digno de qualquer pessoa inadaptada à estação do momento. Se querem Inverno, tomem Inverno.

01-08-2008   3 comentários

Um vídeo para todos nós

A propósito de uma troca de ideias numa caixa de comentários ali para os lados do A New Order, fica aqui convenientemente destacado o vídeo do primeiro single do álbum a solo de Brendan Canning. Something For All of Us não está ao nível do trabalho de Canning nos Broken Social Scene nem da estreia em nome próprio de Kevin Drew, o outro mentor da banda. Afinal, não deverá ser coisa para estar nos tops de 2008… mas, ainda assim, não é coisa de se deitar fora.

“Hit the Wall”, o vídeo.

Download: “Hit the Wall” (MP3)

01-08-2008   1 comentário