Música, indústria e tendências.

Posts de — Setembro 2008

Ouvir The New Pornographers

The New Pornographers

Os The New Pornographers são uma das minhas bandas favoritas da actualidade. De resto, é mais uma que vem do Canadá. Neko Case, Carl Newman e Dan Bejar (Destroyer) são alguns dos principais nomes deste supergrupo indie.

A história dos The New Pornographers, pelo menos a que é pública, não é propriamente diferente da dos outros supergrupos que por aí andam. Havia uma série de gente talentosa espalhada por umas quantas bandas e, de repente, juntam-se duas delas, mais uma uns tempos depois e por aí fora até que houvesse pessoas para todos os instrumentos (esta parte dos instrumentos é, muito provavelmente, uma ideia minha).

Mass Romantic

Long story short, lançaram o primeiro álbum em 2000, três anos depois de começarem a tocar juntos. E Mass Romantic é, de facto, uma excelente estreia. Power pop distorcida por uma secção rítmica absolutamente brilhante (não é exagero), o primeiro álbum dos The New Pornographers não deixa de ser pop. ”The Body Says No”, “The Mary Martin Show”, “To Wild Homes” e o tema de abertura “Mass Romantic” são exemplos do que os The New Pornographers andam por aí a fazer. Mas atentem no vídeo de “Letter From an Occupant” que, não sendo a melhor música do álbum, é um bom cartão de visita para Mass Romantic

Electric Version

Diga-se, apesar de todo o barulho feito a propósito deste Mass Romantic, a coisa só começa a valer a partir do segundo. Ao primeiro, temos de descontar o hype e o efeito surpresa. Electric Version, o segundo, não deixa espaço para dúvidas. A música “The Electric Version” inicia de forma enérgica os 46 minutos mais coerentes dos The New Pornographers até hoje. É melhor que Mass Romantic, tem um número bastante razoável de verdadeiras estrelas (é que “From Blown Speakers”, “The Laws Have Changed”, “All For Swinging You Around”, “The New Face Of Zero And One” e “July Jones” são mais do que simples destaques) e funciona muito bem como um todo (melhor até do que os álbuns que vieram a seguir, quer-me parecer). Há um mês, pus aqui o vídeo de “All For Swinging You Around”; a sugestão mantém-se.

Twin Cinema

Em 2005, chegou a estrela da companhia. Twin Cinema é o álbum mais aclamado, querido e falado dos álbuns dos The New Pornographers. E percebe-se porquê. Porque é o melhor. É o mais completo e complexo que editaram até hoje. É o ponto mais alto do caminho que vinham seguindo desde Mass Romantic. As vozes de Neko Case e de Carl Newman deixam de servir de barreiras e passam a estar mais ligadas às canções em si. Twin Cinema tem altos e baixos, não de qualidade mas de intensidade. Nunca tinham ido tão fundo como em “Streets of Fire”… mas também nunca tinham ido tão longe como em “Use It” e em “The Bleeding Heart Show”, definitivamente as melhores faixas do álbum. Convém destacar aqui três segredos, três coisas acabadas em “ia”: bateria, melodia e energia. Aqui em baixo têm “Use It”. Vejam lá se não tenho razão.

Challengers

Depois de Twin Cinema, não havia mais nada a fazer senão Challengers. É um caminho relativamente diferente; mais calmo, mais velho, mais desligado. Os The New Pornographers perderam energia mas mantiveram as melodias pop que lhes trouxeram fama, dinheiro e mulheres (não vos agrada o tom à documentário da VH1?). O resultado foi um conjunto de canções mais despidas e um álbum muito, muito bonito. Sem a barreira de guitarras à frente e um ritmo tão acelerado quanto possível, os The New Pornographers entregam, num registo diferente, um conjunto de canções de excelente nível. Claro, ainda há uma ou outra recaída – “The New Face Of Zero And One” e “Mutiny, I Promise You” – mas a maior parte das músicas de Challengers segue outro caminho, um que é dominado pela familiaridade pop de “Go Places”, “My Rights Versus Yours” e “All The Old Showstoppers” e pela emoção de “Unguided” e de “Adventures In Solitude”. E depois há “Challengers”, a pausa para respirar. Nunca a voz de Neko Case soou tão bem.

Um comentário em jeito de conclusão

Twee pop. Power pop. Indie pop. Não é difícil perceber que há ali qualquer coisa que se repete, seja qual for a gaveta onde metemos os The New Pornographers. Em boa verdade, estão todos relativamente correctos. E depois há as influências, desde a country mais redneck até ao dia mais solarengo da vida de Brian Wilson. O resultado é uma banda sem medo de soar bem em muitos ouvidos, o que é quase uma definição de música pop.

Mas ao final do dia, estes enquadramentos valem o que valem – muito menos que a música em si, claro. Vão mas é ouvir os discos.

09-09-2008   1 comentário

Cenas de um casamento

Confesso que não fiquei propriamente impressionado com o último álbum dos Death Cab For Cutie quando o ouvi pela primeira vez. De resto, tinha acontecido o mesmo com Plans, o anterior. Mas ao contrário de Plans, que foi lá com o tempo, este Narrow Stairs ainda não me convenceu. Claro que ninguém estava à espera de mais um Transatlanticism… mas esperava-se algo mais do que isto.

O single “I will possess your heart” é um exagero (8 grandes minutos de duração) e a maior parte das canções é coisa para passar facilmente ao lado. Mas Narrow Stairs tem boas músicas, claro. “Bixby Canyon Bridge”, o tema de abertura, até é engraçado. A veraneante “Your New Twin Size Bed” idem.

O álbum tem poucos picos de interesse mas o pedaço de college rock para meninas chamado “Cath…” é definitivamente um deles. E o vídeo é este que aqui está em baixo. Logo hoje que estive num casamento.

 

06-09-2008   5 comentários

A experiência Radiohead

O meu último (pelo menos para já) artigo com exemplos da experiência. Se quiserem dar uma vista de olhos nos restantes:

- a experiência The National

- a experiência Broken Social Scene

Radiohead ao vivo em Barcelona

Radiohead

Claro, tinha de ser. Os meus favoritos desde… 2004. Sim, demasiado tarde, bem sei. Ainda assim, lembro-me bem de como começou. Um download, uma audição e um reminder. Estava eu no 60 com dois colegas meus de faculdade (ia mostrar-lhes o Castelo de São Jorge) quando um deles começou a cantarolar a “Creep”. Deu-me vontade de ouvi-la. Depois disto, foi uma doença que piorou.

A experiência Radiohead é:

- uma colecção de cerca de 50 CDs, uns quantos DVDs e um par de discos de vinil que tem demorado a crescer;

- o êxtase no momento em que me ofereceram o na altura raro EP Airbag/How Am I Driving? e, posteriormente, a edição especial do Amnesiac;

- o entusiasmo com o lançamento do In Rainbows;

- o esforço (levado até ao fim) para não ouvir o segundo disco do In Rainbows antes de ter o original nas mãos;

- a viagem de expresso para o Alentejo que começou com o Kid A;

- as 53 vezes seguidas que ouvi “How I Made My Millions?”, um b-side obscuro em que se ouve a namorada do Thom Yorke a fazer qualquer coisa lá por casa;

- os bootlegs, sempre os bootlegs;

- o sorriso após os primeiros segundos de “15 Step” no iPod a caminho do trabalho no dia 10 de Outubro;

- a primeira vez que liguei convenientemente ao The Bends para desenjoar do Pablo Honey (sim, a minha evolução foi mais ou menos de acordo com a cronologia da discografia);

- a versão leakada de Hail To The Thief de que só me apercebi depois de comprar o original;

- promos, promos, promos;

- “Killer Cars”, o primeiro b-side;

- “Lift”, uma das melhores de sempre;

- um trabalho de faculdade sobre a “Fake Plastic Trees” (acabei com 17);

- véspera de Santo António e eu sozinho em Barcelona para assistir ao melhor concerto da minha vida e, tendo tudo o resto em conta, um dos momentos mais altos dos meus vinte e poucos anos;

- músicas perfeitas.

Não há grandes explicações. Os Radiohead são a minha banda 360º, a minha favorita. A marca Radiohead, de que falei há algum tempo, é apenas uma pequena parte da experiência Radiohead. O que sobra é quase mágico, inqualificável.

02-09-2008   5 comentários