Música, indústria e tendências.

Do contra

De um modo geral, o hype aborrece-me. Claro que há excepções: tenho todo o prazer em contribuir para o elogio público a bandas do momento, desde que goste (um pressuposto justo, parece-me). No entanto, as mais das vezes, o hype aborrece-me.

Falo disto agora porque é um momento especial: nos últimos meses, têm-se multiplicado referências extremamente elogiosas a três projectos portugueses.

Folgo em ver que se anda a fazer música gira por cá… mas preciso urgentemente que imponham um limite aos elogios. É que, apesar da Deolinda ser um projecto muito engraçado (boas letras, bom espírito), o hype já chateia. E os Pontos Negros, que têm um rock que até se ouve uma vez, não são os The Strokes portugueses, raios partam o hype. Ah, espero não precisar de dizer nada sobre a “energia” dos Soulbizness, uns posers cheios de hype patrocinados pela Mega FM.

Nada me move contra as bandas especificamente, pelo menos contra as duas primeiras. Posso dizer apenas que, com tanta coisa, quase não me apetece dar-lhes oportunidades… mas what do they care? Faz sentido. Eles não têm culpa de que toda a gente goste deles (quer dizer, até têm, mas isso é bom, em princípio) mas eu é que não tenho paciência para tanto exagero.

Poderei estar a contribuir para o hype daqui a duas semanas (é a maravilha da música pop) mas, enquanto não o faço, fico-me pelo contra.

11 comentários

1 Sílvia { 20-10-2008 às 13:55 }

Então? A criticar essa maravilhosa banda que está a “revolucionar a música em Portugal” ? (citação dos próprios. Um momento inesquecível)

Lamentável, lamentável…

:D

2 Pedro Rocha { 20-10-2008 às 14:31 }

O hype faz parte do paradigma consumista da nossa sociedade do descobrir, usar, deitar fora e descobrir de novo. Ou como diriam os repórter estrábico, “consome, consome/ mata a fome”. Mais vale aproveitar as coisas boas do paradigma – a facilidade e a rapidez com que se cria e recria algo de novo e fresco – do que lutar contra ele ( o que pode causar úlceras).

O que é engraçado é que mesmo neste frenesim do “mastiga, deita fora”, a malta gosta sempre de encontrar um common ground para se relacionar e chegar a uma espécie de acordo quanto ao som das coisas… e daí nascem os chavões “strokes portugueses”, os “portishead d’alcobaça”, os “violent femmes portuenses”, os “tindersticks meets interpol”… e que bem que me sabe classificar as coisas – dá para reduzir o mundo e torná-lo bem mais manejável e comunicável…

Cheers mate!

3 Filipe Marques { 20-10-2008 às 14:49 }

A catalogação, o common ground não me incomoda, pá. Pelo menos, não na maioria dos casos. O que me chateia nos Strokes portugueses não é isso… é simplesmente o exagero. Os Strokes são bem melhores. E é isso. :)

4 Raquel Ribeiro { 20-10-2008 às 14:57 }

Filipe: os Deolinda são a maior bodega que a máquina promocional se poderia ter lembrado de endeusar. Não há como aturar aquilo, sinceramente. Quanto à questão dos hypes, os peixe:avião também são um hype dentro do seu nicho próprio. Mas esses soam bem. Verdade?

Pedro: não resisto a recomendar-lhe que leia qualquer coisa mais recente sobre sociedade de consumo. O Baudrillard é que gostava muito de cascar nela, mas até esse já morreu. Diziam os velhos Talk Talk que “life´s what you make it”…e olhe que o consumo também.

5 Filipe Marques { 20-10-2008 às 15:47 }

Coitadinhos dos Deolinda. A verdade é que não tenho mesmo nada contra eles. Mas tenho contra os que os endeusam. É que parece que se juntam todos ali em frente ao Bicaense a decidir de quem é que vão falar bem amanhã… (enquanto não me deixam passar com o carro lá pelo meio… mas isso é outra história)

6 Pedro Rocha { 20-10-2008 às 16:01 }

Eu tb gosto do common ground… sou um fã de “catalogar” coisas. Mas admito que muitas vezes isso ainda aguça o preconceito. E sim, os strokes são melhores!:)

Raquel, não é necessário cavar um fosso cultural entre nós com a referência a um qualquer autor mais ou menos obscuro… :) eu vivo e aceito a sociedade de consumo onde me integro – não embarco em teorias “new age” à la Paulo Coelho :) – aliás, como escrevo no comentário anterior, recomendo até que “mais vale aproveitar as coisas boas do paradigma”.

Mas considero que a rapidez com que se criam e destroem bandas e músicas e singles é relativamente similar à velocidade com que se lança um novo modelo do ipod, um novo processador, um novo sabor de gelado, que assim retira espaço ao ipod velho, ao processador ultrapassado e ao gelado que até nem sabe assim tão bem.

Life is what you make of it, certamente. Não teríamos erguido a nossa sociedade se a nossa vontade individual não movesse montanhas. Digo somente que quem move montanhas deixa sempre um rasto gigantesco atrás de si.

Mas isto é empirismo…;)

Cumprimentos,

Pedro

7 Raquel Ribeiro { 20-10-2008 às 17:05 }

E no entanto, parece que já no tempo do Maomé as montanhas não se fiavam na capacidade de ninguém as mover…até se abriu a hipótese de terem que mover-se sozinhas.
Eu diria que quem não move montanhas é quem faz mover mais montanhas. Mas isto é empirismo…;)
Quanto a rasto, isso todos deixamos, até as bandas. As que são competentes dentro do seu género, claro. Mais alguém se lembra das outras ou tem pena que desapareçam?

(O Baudrillard não é um autor obscuro, é até bem conhecido pela vox populi, que impregna discursos anti-capitalismo, anti-obsolescência, etc…digamos que é um guru dos senhores das ciências sociais ali para os lados da esquerda, que vivem no terror do “consumidor-enganado-e-forçado-pela-máquina-de-fazer-dinheiro-a-comprar-e-deitar-fora-o-que-não-quer”…esse velho mito urbano).

8 Rute Correia { 22-10-2008 às 22:16 }

Também me aborrecem os hypes. E às vezes nem é que as bandas (ou artistas) não sejam bons. Mas, convenhamos, a verdade é que não precisamos que criar aquela euforia toda. Os Pontos Negros, os Deolinda, os Arctic Monkeys, os CSS, ou até os Arcade Fire… Tanto faz, mas a alucinação colectiva também me faz desesperar… É pena. É mesmo pena, porque às vezes as coisas são mesmo boas, mas os carros alegóricos que se geram à sua volta fazem-me alergia, pelo que espero que a parada passe para poder apreciar melhor.

Obrigado pela “compreensão” =)

9 Marta Santos { 24-10-2008 às 12:53 }

O que eu acho é que há tempo e espaço para tudo. Para nos encostarmos a uma qualquer parede e esperarmos que a resitência que mostramos, mude qualquer coisita. E para nos lambusarmos em descobertas, cuspidas depois de mais ou menos mastigar. Não é tudo mais rico assim?

Convivo bem, com hype, entre outras coisas. Só isso. ;)

10 JM { 26-10-2008 às 21:43 }

Os Pontos Negros são o que há de melhor na pop/rock nacional, actualmente. Já há muito que esperava poder cantar boas canções, com boas letras, com espírito rock’n'roll, jovial, descomprometido, como são as d’Os Pontos Negros. E prepara-se para Os Golpes, os Heróis do Mar de 2009.
Já peixe:avião foi a pior coisa portuguesa que devo ter ouvido. Lembraram-se de fazer o The Bends dos Radiohead (excelente disco), mas….em mau, ou péssimo.
Deolinda não vou à bola, aquela coisa toda da cultura popular, mas exibida de forma tão obvia, ha quem o faça bem melhor (ver A Naifa).
Cumprimentos.

11 Filipe Marques { 27-10-2008 às 3:46 }

Rute, acho que estou completamente de acordo. Ainda assim, se conseguimos passar por esse mar de baba (vá, entre aspas), acabamos por gostar de uma ou outra coisa. Para mim, The Arcade fire foi assim. E depois deram um dos melhores concertos que já vi e fiquei satisfeito. Pronto.

Marta, eu às vezes também convivo bem com o hype. Mas lá está… Às vezes não há mesmo quem ature tanta palermice.

João… já tinha saudades dos teus contra-ataques venenosos, pá. Como é óbvio, discordo quase a 100 por cento, como sempre. Mas cá nos entendemos. ;)

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