O peso da Fnac na distribuição
As lojas de música portuguesas são conservadoras. A Fnac (que é, na prática, a única loja de música digna desse nome) prefere manter margens de lucro mais elevadas e vender pouco do que ganhar menos por unidade e mais no total. Porquê? Certamente, pelo medo de não vender tanto assim. E também porque pode. Mas esta arrogância não lhe fica bem.
Neste momento, no entanto, e sobretudo com a Libra quase equivalente ao Euro, não consigo deixar de pensar que a Amazon.co.uk é cada vez mais a melhor solução para os que ainda gostam de comprar CDs. Claro que isto pouco importa à Fnac, já que o negócio deste retalhista não é a música (nem os livros ou o cinema): é a electrónica de consumo e a informática, que é o que lhes dá dinheiro. O resto é posicionamento. Tem alguma importância mas, quando chega a altura de contar os trocos… não é por aí.
Mas pronto, isto demonstra bem a situação actual do negócio tradicional da música gravada. Em Portugal, ninguém procura inovar nesta área, parece estar tudo à espera de uma salvação vinda, talvez, do estrangeiro. O iTunes tem contribuído com alguma coisa para as pobres das editoras… mas não é definitivamente o futuro. Pelo menos não nos moldes actuais.
Entretanto, mantemo-nos nas campanhas de mid-pricing e nas vantajosas (para todos menos para mim, o consumidor) sinergias entre estações de TV, produtoras de conteúdos, editoras, promotoras e mais uns quantos players. OK, lá vamos tendo um ou outro bom exemplo de como fazer as coisas… mas, mesmo para um mercado tão estagnado como o nosso, não chega.
Uma coisa é certa: a Fnac pesa que se farta na distribuição de música. E estes monopsónios não trazem nada de bom, até porque não existe competição entre as editoras e, no final, é sempre a Fnac que decide os preços a praticar (com um ou outro limite, claro).

3 comentários
É notório o desinvestimento da Fnac na música. Se pensarmos nos primeiros tempos havia singles (poucos, mas havia!), havia quase tudo o que saía de novo a nível internacional e uma amostra significativa de álbuns do passado. Hoje em dia os singles foram à vida, álbuns novos só mainstream (os outros por vezes aparecem mas em quantidades insignificantes) e do passado só coisas que tenham sido muito significativas.
E a Fnac devia definitivamente melhorar o sistema de comunicação inter-lojas. Certamente já nos aconteceu a todos perguntarmos por um álbum numa loja e dizerem que não está disponível em Portugal, e no mesmo dia encontrarmos esse álbum noutra loja da Fnac. Mas o meu incidente favorito foi ter um álbum encomendado durante 3 meses, cancelarem-me a encomenda sem me darem qualquer tipo de satisfação, quando liguei a saber o que se passou terem-me dito que o álbum estava esgotado há imenso tempo e no dia seguinte, advinhem, encontreio-o numa das lojas da Fnac! Agoram digam lá se isto é bom serviço?
Concordo com o João, pois já passei por situações semelhantes. Ainda assim, não posso deixar de admitir que ainda hoje me perco em qualquer uma das lojas Fnac. É certo que os preços não são amigáveis, embora nos últimos tempos tenha havido uma tendência para mudar o “preço verde” para o “preço mínimo”, o que é de louvar. O problema é que, de facto, a oferta diminui: as secções especializadas têm prateleiras cada vez mais pequenas, com a excepção da “Música Portuguesa”, mas isso terá mais que ver com uma aposta generalizada no nacional – há cada vez mais “burburinhos” e “hypes” dentro do nosso mini-universo musical.
A história da Fnac e da loja de discos, é igual à do supermercado e da mercearia do vizinho. As pessoas vão lá porque é mais fácil, porque está num centro comercial e tem quase tudo o que precisam. É sobretudo uma questão de comodismo. Infelizmente, a preguiça do “consumidor-genérico” propicia a preguiça do vendedor e o “consumidor-especializado” é quem sai mais penalizado. Porque sabe o que se passa, e a loja de discos entretanto fechou.
Só uma coisa: o facto de cada vez haver menos álbuns novos à venda na Fnac não é só (e pode até ser que seja mesmo muito pouca) culpa da Fnac. Só uma pequena parte do que vendem é importado. O resto é distribuído em Portugal por empresas da área, nomeadamente editoras e distribuidoras. A falta de aposta em álbuns novos é mau trabalho de quem os distribui, que não tem a mínima noção de que a diferença entre ter o álbum disponível no instante em que sai e não ter é gigante.
Recordo-me de ter falado com os responsáveis da Popstock Portugal sobre esse assunto… e eles diziam que se falhassem a pôr um álbum dos The White Stripes ou dos The National nas lojas, a coisa ficava complicada para eles (em Portugal, pois está claro).
De resto, creio que a questão do comércio de bairro vs. gigante multinacional já cansa um pouco. Antes da Fnac, que lojas tínhamos de bairro em Lisboa, por exemplo? Valentim de Carvalho (horrível, mesmo para a altura), Virgin (Fnac em versão de testes) e depois uma ou outra coisa sem mercado fora do mainstream (muito bem coberto por qualquer gigante, claro).
As alternativas (Flur, Carbono e as outras todas do vinil…) mantiveram-se, desapareceram, apareceram outras… ou seja, continuam a existir. Agora: quantas vezes vão à Fnac e quantas vão a uma das outras?
Creio que fazem falta outros pesos pesados para fazer concorrência à Fnac… e se houver quem continue a apostar em lojas pequenas, que o faça bem (como algumas o fazem).
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