Música, indústria e tendências.

Posts de — Fevereiro 2009

Polaroid

Dark Was The NightA compilação cheia de estrelas da pop/rock independente já está na rua. São 31 canções, umas melhores que outras, mas todas com um objectivo bastante nobre: angariar dinheiro e chamar a atenção para o problema da Sida. Uns fazem-no com celebridades, outros com imagens chocantes. A Red Hot fá-lo através da cultura popular.

Quanto à música propriamente dita, pode dizer-se que é muita. Demasiada mesmo. O número elevado de faixas faz com que dificilmente me recorde da maioria das músicas do segundo CD. Por exemplo, a música dos The Arcade Fire parece tirada do monte dos restos. E o Kevin Drew também não impressiona com a sua mais que lo-fi “Love vs. Porn” (no género, prefiro a fantástica “Summer Time Dues”). Escapam-se Beirut com “Mimizan”, My Morning Jacket com “El Corporal” e Yo La Tengo com “Gentle Hour (Snapper)”. Conor Oberst reciclou “Lua” com Gillian Welch e os The New Pornographers ficaram um pouco abaixo do esperado. Cat Power é linda e tudo o resto… mas pouco acrescenta à mais que batida “Amazing Grace”.

Comecei ao contrário porque o primeiro disco é bem mais interessante. Uma das equipas que mais se destaca é a de The Books com José González na espectacular “Cello Song”, um original de Nick Drake. Claro que há algumas desilusões: The Decemberists, Sufjan Stevens e Feist são bons (maus) exemplos. Mas há mais coisas positivas: The National e a espevitada “So Far Around The Bend” e os bons momentos de Justin Vernon como Bon Iver em “Brackett, WI” e como Justin Vernon propriamente dito em “Big Red Machine”, uma música cuja autoria partilha com Aaron Dessner, guitarrista dos The National e co-produtor desta compilação.

O momento mais surpreendente desta maratona musical é, no entanto, a parceria entre Antony e Bryce Dessner (o outro produtor…) em “I Was Young When I Left Home”, um tema original do grande Bob Dylan. Antony nem parece o mesmo… e deve ser por isso que gosto tanto da música. Está folksy e o motivo é mais do que óbvio.

É uma boa polaroid do indie rock da década, como diz a Popstock na conversa comercial de promoção do disco. É por isso que é tão irregular e defeituosa… mas é aí que está a beleza.

26-02-2009   Sem comentários

Depeche Mode: iTunes Pass e um vídeo gigante

Os Depeche Mode vão lançar um novo álbum em Abril. Sounds of the Universe deverá ser mais da mesma fusão pop/rock/electrónica alimentada a religião, amor e sabe-se lá mais o quê típica do trio britânico.

As notícias sobre o novo disco não param de sair: datas, capa, alinhamento e mais a tralha habitual. Há, no entanto, uma notícia um tanto ou quanto diferente, já que envolve uma nova brincadeira com o iTunes e dinheiro a sair dos bolsos dos interessados.

Long story short, a Apple faz agora com os Depeche Mode o mesmo que já fazia com uma série de programas de televisão: vende um passe que dá aos fãs da banda acesso a músicas e vídeos exclusivos, remisturas, o novo álbum… e tudo a cair automaticamente na biblioteca do iTunes. Enfim, serão 15 semanas de expectativa para os fãs… e 19 euros de confiança depositada na Apple e na banda. Negócio interessante mas a modos que manhoso.

De resto, até me interessa mais a música e o vídeo de “Wrong”, o primeiro single do novo longa-duração. A canção parece-me usar alguns dos melhores argumentos de Songs of Faith and Devotion misturados com a sujidade de alguns dos melhores temas de Ultra. Ou seja, “Wrong” é motivo mais do que suficiente para ficarmos todos na expectativa de um grande álbum.

Como se isto não bastasse, o vídeo realizado por Patrick Daughters é absolutamente fantástico. Mesmo. Ora vejam lá.

25-02-2009   Sem comentários

Depressão e cinismo: The Dears

O tempo que esta banda demorou a chegar-me aos ouvidos é um crime. Foi tarde – há dois ou três meses – que Missiles tocou pela primeira vez para estes lados. Com letras cínicas e melodias pop a duas vozes, os The Dears têm na voz de Murray Lightburn – o marido – um instrumento polivalente que tanto chuta cá para fora uma forte textura à la Alan Sparhawk, vocalista dos Low, como se aventura mais que competentemente em falsetes oportunistas. A de Natalia Yanchak – a mulher – é bem menos vistosa mas não é coisa para deixar ninguém envergonhado.

A cena musical de Montreal tem-nos dado muita coisa boa nos últimos 10 anos. The Arcade Fire, The Stills, Stars, A Silver Mt. Zion e Godspeed You! Black Emperor são, muito provavelmente, os melhores exemplos. Os The Dears também.

Deixo-vos duas brilhantes canções de Missiles – as melhores. A primeira foi single e chama-se “Money Babies”. Parece que o dinheiro deles é elástico.

A outra é a fantástica “Dream Job” em versão acústica, gravada ao vivo na QTV. Não chega ao nível da versão original mas dá claramente uma ideia. E o refrão – “You got dreams of taking someone else’s dreams away” – é tão directo quanto possível… mas algo do outro mundo.

22-02-2009   2 comentários

A Universal no Twitter: cool!

RonaldinhoA modernidade chegou a Benfica, mais especificamente a uma espécie de loja ali no 12D da Rua Reinaldo dos Santos, perto do Fonte Nova. A Universal Music Portugal está no Twitter a fazer o que se esperaria – despeja links numa tentativa de desenvolver o seu próprio PR Newswire ou de ser cool e modernaça (ali como o Ronaldinho). E é, como seria de esperar, uma tentativa frustrada. Porquê?

1. Não me seguem mas seguem a Apple. Está-se bem a ver as prioridades.

2. Há ali um ser humano muito pouco importante (ou então tem muita importância mas ainda não descobriram o Twitterfeed).

Vejam o exemplo da RTP, que é o melhor exemplo que se vê aí de perfil de empresa no Twitter. Um ser humano (uau) a escrever como tal, a errar como tal e a pôr consumidores a consumir o seu produto (telespectadores a ver televisão, portanto).

Entretanto, ficamos muito contentes por saber que:

A voz de Adriana chega devagar.Passa primeiro num jogo de sedução discreto,mas sabe que não temos por onde escapar http://tinyurl.com/dh2tzt

Que pobreza, pá.

20-02-2009   Sem comentários

Não percebo o barulho em torno dos Grammys

Coldplay num poster promocional dos Grammys

Sei que já venho tarde mas deixem-me só fazer umas quantas observações:

1. Os Grammys são prémios americanos. Dois ou três dos outros conjuntos de prémios a que nós damos importância também, nomeadamente os de cinema. Tanto me faz mas… muito mais do que os Oscars ou o que quer que seja, os Grammys são intrínseca e inevitavelmente americanos. A country é rainha. R’n'B e hip-hop saem habitualmente vencedores. O resto pouco interessa. Os Grammys são os prémios mais importantes da música nos Estados Unidos, sem dúvida. No resto do mundo, no entanto, não percebo porquê. Não faz sentido.

2. Os Grammys são estúpidos. OK, talvez não sejam os Grammys propriamente ditos mas antes a NARAS. Então não é que andam no YouTube a apagar vídeos das actuações da cerimónia? Como diz, e bem, Michael King a propósito do vídeo de “15 Step” dos Radiohead com a USC Marching Band, parece que fazem questão de apagar o melhor conteúdo que têm desde há muito tempo e certificam-se de que ninguém consegue ver nem partilhar nada. Brilhante!

3. Os Grammys são estranhos. Aqueles duetos, aquele entusiasmo todo e a leve sensação de regresso ao início da década de 90 arrepiam-me. Mas pronto, isto já sou eu a embirrar.

16-02-2009   Sem comentários

Isis

Não é uma banda que ouça frequentemente… mas é certamente uma a que volto de vez em quando.

Os Isis representam tudo o que há de bom no encontro entre o metal e o pós-rock. Às vezes penso que a voz podia ser outra… mas pronto, não se pode ter tudo. “In Fiction” foi a primeira música que ouvi dos Isis. Entretanto, já andei por outros álbuns deles, dos mais leves (hã?) aos mais pesados. Entre os crescendos pós-rock e os apoteóticos momentos de doom metal (foi a ouvir Isis que me disseram que eu gostava oficialmente de doom metal), escolham vocês.

“In Fiction” é um dos momentos calmos de Panopticon, o álbum que a banda lançou em 2004.

15-02-2009   Sem comentários

Setlist.fm, um mar de alinhamentos

Ando definitivamente virado para os sites simples desta nossa Web. Depois dos pensamentos musicais, é outro que me enche as medidas com pouco.

Setlist.fm é pouco mais do que o nome indica: um site de setlists em jeito de wiki. Qualquer um pode acrescentar e editar alinhamentos de concertos.

Para além de ser uma óptima biblioteca de setlists, o Setlist.fm permite ouvir as músicas que as constituem e ainda apresenta algumas estatísticas organizadas por artista e por digressão que, apesar de potencialmente erradas (por não estarem completas), dão algumas indicações muito interessantes relativamente às músicas mais tocadas por cada artista.

Pela estatística mas também pelo acompanhamento das digressões em tempo real, Setlist.fm é um bom recurso para os freaks das setlists. Já lá andei a perder algum tempo e pretendo continuar a fazê-lo.

12-02-2009   4 comentários

Entrevista com Pedro Vindeirinho da Rastilho – parte 2

RastilhoAnteontem publiquei aqui a primeira parte da entrevista que o Pedro Vindeirinho da Rastilho me concedeu. Aqui fica a segunda.

Que te apraz dizer sobre o P2P, a pirataria e os downloads ilegais?
É o resultado de (quase) duas décadas de desleixo por parte dos principais agentes relacionados com a indústria discográfica. Aliás, ninguém tratou pior a música e faltou mais ao respeito aos fãs e consumidores do que as editoras nos anos 80 e princípios de 90, onde todo o monopólio das majors e preços exorbitantes eram uma afronta. A vingança veio anos mais tarde com as maravilhas da tecnologia. A mim não me choca que se façam downloads ilegais. Preocupante é veres miúdos com 16 anos que nunca compraram um disco na vida e, mais grave ainda, afirmarem com orgulho que têm dezenas de GB em música pirateada. Isso não é nada gratificante para quem despende meses na preparação de um disco, sejam músicos, editores ou produtores. Vejo toda esta questão como irreversível e, no caso das novas bandas, pode significar à priori a morte de muitas bandas. Volto a dizer: aceito que me digam que fazem dowloads ilegais de discos. O que não suporto é o riso jocoso de algumas pessoas que o afirmam (incluindo músicos) como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não é e nunca será! Ninguém pensa em ir a um cinema sem pagar, em visitar uma galeria de arte com o intuito de comprar um quadro sem o pagar…. porque razão há-de ser natural piratear música?

Tens sentido na pele os efeitos?
Não te posso quantificar, mas sim todos sentimos.

E, já agora, sobre os downloads legais, parece-te que a “salvação” é por aí?
Os últimos discos da Rastilho estão todos disponíveis no Itunes e nas principais lojas online de venda digital. Mas as vendas são ainda baixas e não compensam a quebra nas vendas de discos. Está à distância de um clique a opção para ti (enquanto consumidor) de pagar ou não pelo trabalho de uma banda… é, acima de tudo, uma questão de consciência, aliada a factores económicos.

Já agora, o que está a Rastilho a preparar para este ano?
Em Fevereiro, temos as edições de One Hundred Steps, Human Clouds, e Switchtense, Confrontation Of Souls. Em Março as reedições dos 2 álbuns (esgotados) dos Linda Martini: Olhos de Mongol e Marsupial.  Em Abril, os novos álbuns de Old Jerusalem e Legendary Tiger Man; a reedição do primeiro álbum dos peixe:avião em vinil e o Empire dos The Allstar Project, ainda sem data para lançamento. Mas teremos mais algumas surpresas em termos de vinil este ano… A seu tempo serão reveladas!

11-02-2009   2 comentários

Entrevista com Pedro Vindeirinho da Rastilho – parte 1

RastilhoHá já alguns meses que andava a pensar nisto… porque nos falta, muitas vezes, a perspectiva de quem vive o negócio da música de forma mais próxima. O Pedro Vindeirinho criou a Rastilho em 1996 e acrescentou-lhe a edição de discos em 1999. A Rastilho Records é uma editora independente de Leiria que já lançou discos de Dapunksportif, Linda Martini, peixe : avião e If Lucy Fell, entre muitos outros. O Pedro aceitou responder a umas quantas perguntas por e-mail. Publico esta entrevista em duas partes: a primeira hoje, a segunda na quarta-feira.

Como promove a Rastilho os álbuns que edita?
Depende do lançamento em questão e do orçamento para marketing disponível. Mas, de forma genérica, a promoção é feita nas rádios nacionais (e regionais) com o envio de singles antes das saídas dos álbuns numa primeira fase; mais tarde, segue-se o envio dos álbuns físicos para a imprensa escrita. Paralelamente, existe toda a promoção feita via Internet (com as mais diversas ferramentas) e, pontualmente (conforme o export profile de cada banda), promoção na Europa em parceria com os nossos distribuidores locais.

Sei que fazes uso do MySpace e do YouTube com alguns resultados mas, dado que muitas das outras novas ferramentas de comunicação são gratuitas (Twitter, Last.fm, FriendFeed, Facebook, RSS, etc.), porque não vemos a Rastilho a apostar mais nelas?
É uma boa questão… A questão do Last.fm será resolvida em breve… Quanto ao resto, não te sei honestamente responder. Mas a maioria das nossas bandas faz uso dessas ferramentas e acaba por haver interacção com os seus fãs dessa forma. Preferimos centrar (enquanto editora) as novidades no nosso site, no MySpace e YouTube.

Achas que a forma como dás a conhecer a música que editas influencia de forma determinante o sucesso comercial dos discos?
Não é possível quantificar a relação promoção-vendas de forma directa. Esquecendo lançamentos com forte promoção em televisão direccionados para público mais juvenil, muitas das vezes um single passar numa rádio nacional não significa mais vendas e sucesso. Posso referir-te que, em 2008, com os peixe:avião, dois famosos órgãos de imprensa nacional decidiram ignorar o álbum 40.02. Noutra situação, poderia significar a morte anunciada do disco, mas constatei que a base fiel de fãs e as dezenas que sites e blogs que deram a devida atenção a este disco, acabaram por fazer com que este fosse o nosso disco mais bem sucedido de sempre em termos de vendas (até à data). Sinto que existe um divórcio entre quem escreve sobre música em Portugal de forma profissional (que a maioria das vezes o faz para alimentar o seu ego, como se se tratasse de uma catarse) e o público em geral. Felizmente, o público vai identificando essas divergências e opta por outras fontes credíveis antes de comprar um disco.

Como avalias o trabalho feito pelas editoras independentes portuguesas nos últimos tempos?
É crucial e cada vez mais importante para as novas bandas nacionais. Mas o cenário não é nada animador, também as editoras independentes passam por grandes dificuldades, porque a compra de discos é cada vez menor. No caso da Rastilho, será complicado manter este ritmo editorial se a situação persistir este ano. Identifico-me com a Raging Planet em termos editoriais. De resto, sou um grande crítico das novas editoras que surgiram o ano passado com inspiração divina, que têm tido a bajulação irritante dos principais media nacionais. A meu ver, algo corre mal quando os editores e os A&Rs se tornam mais importantes que as suas bandas. Quem trabalha com seriedade não procura protagonismo mesquinho, alimentando falsas profecias. Mas talvez o problema seja estarmos deslocados de Lisboa, onde tudo se passa e tudo acontece. Aceitamos esta realidade e convivemos bem com ela.

E o das majors (cá e lá)?
Só posso referir dois casos com os quais temos ligações mais directas: a NorteSul Valentim de Carvalho e a Universal. Ambas trabalham bem e fazem o que podem tendo em conta a crise geral.

09-02-2009   4 comentários

Fui ver, era o Alive!

A Everything Is New confirmou os primeiros nomes para a edição deste ano do Optimus Alive! e, fica curto e grosso, parece-me um péssimo primeiro passo.

Dave Matthews, perfeito. Esteve cá em 2007, se não estou em erro, mas é um bom cabeça de cartaz.

Metallica? Nem por isso. 2006, 2007 e 2008: que tiveram estes anos em comum, para além de 12 meses, 52 semanas e mais um ou outro pormenor? Metallica em Portugal. 2009, para não ficar de fora, terá Metallica em Portugal. Bem, ao menos é com um novo álbum…

Enfim, nem falo de Slipknot, que até tem um espectáculo giro mas que se fica por aí.

Estará o Alive a transformar-se no Super Bock Super Rock?

07-02-2009   3 comentários