Música, indústria e tendências.

Entrevista com Pedro Vindeirinho da Rastilho – parte 2

RastilhoAnteontem publiquei aqui a primeira parte da entrevista que o Pedro Vindeirinho da Rastilho me concedeu. Aqui fica a segunda.

Que te apraz dizer sobre o P2P, a pirataria e os downloads ilegais?
É o resultado de (quase) duas décadas de desleixo por parte dos principais agentes relacionados com a indústria discográfica. Aliás, ninguém tratou pior a música e faltou mais ao respeito aos fãs e consumidores do que as editoras nos anos 80 e princípios de 90, onde todo o monopólio das majors e preços exorbitantes eram uma afronta. A vingança veio anos mais tarde com as maravilhas da tecnologia. A mim não me choca que se façam downloads ilegais. Preocupante é veres miúdos com 16 anos que nunca compraram um disco na vida e, mais grave ainda, afirmarem com orgulho que têm dezenas de GB em música pirateada. Isso não é nada gratificante para quem despende meses na preparação de um disco, sejam músicos, editores ou produtores. Vejo toda esta questão como irreversível e, no caso das novas bandas, pode significar à priori a morte de muitas bandas. Volto a dizer: aceito que me digam que fazem dowloads ilegais de discos. O que não suporto é o riso jocoso de algumas pessoas que o afirmam (incluindo músicos) como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não é e nunca será! Ninguém pensa em ir a um cinema sem pagar, em visitar uma galeria de arte com o intuito de comprar um quadro sem o pagar…. porque razão há-de ser natural piratear música?

Tens sentido na pele os efeitos?
Não te posso quantificar, mas sim todos sentimos.

E, já agora, sobre os downloads legais, parece-te que a “salvação” é por aí?
Os últimos discos da Rastilho estão todos disponíveis no Itunes e nas principais lojas online de venda digital. Mas as vendas são ainda baixas e não compensam a quebra nas vendas de discos. Está à distância de um clique a opção para ti (enquanto consumidor) de pagar ou não pelo trabalho de uma banda… é, acima de tudo, uma questão de consciência, aliada a factores económicos.

Já agora, o que está a Rastilho a preparar para este ano?
Em Fevereiro, temos as edições de One Hundred Steps, Human Clouds, e Switchtense, Confrontation Of Souls. Em Março as reedições dos 2 álbuns (esgotados) dos Linda Martini: Olhos de Mongol e Marsupial.  Em Abril, os novos álbuns de Old Jerusalem e Legendary Tiger Man; a reedição do primeiro álbum dos peixe:avião em vinil e o Empire dos The Allstar Project, ainda sem data para lançamento. Mas teremos mais algumas surpresas em termos de vinil este ano… A seu tempo serão reveladas!

2 comentários

1 Miguel Caetano { 11-02-2009 às 15:23 }

Volto a dizer: aceito que me digam que fazem dowloads ilegais de discos. O que não suporto é o riso jocoso de algumas pessoas que o afirmam (incluindo músicos) como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não é e nunca será! Ninguém pensa em ir a um cinema sem pagar, em visitar uma galeria de arte com o intuito de comprar um quadro sem o pagar…. porque razão há-de ser natural piratear música?

Umm… Estou a ver que ainda há muito trabalho de pedagogia a fazer em Portugal junto de editoras independentes. Aconselho a leitura desta entrevista ao responsável da editora independente norte-americana Asthmatic Kitty (Sufjan Stevens, Castanets, etc.) onde se refere o seguinte:

Trabalho com a convicção de que as pessoas comprarm discos porque querem possuí-los, não porque pretendem ouvi-los. Hoje em dia é demasiado fácil escutar um disco sem ter que o comprar. Eu não nutro ressentimento por isso (…) A nossa missão já não é vender às pessoas coisas que elas querem ouvir. Elas desejam uma experiência e querem identificar-se elas próprias como parte de uma comunidade.

Isto tem tudo a ver com criar um diálogo e estabelecer uma relação com os fãs. E nesse aspecto é crucial marcar presença na Web social, ao contrário do que se referia num comentário à primeira parte da entrevista. Se não em nome da própria editora, pelo menos ajudando os seus artistas a criarem uma maior implantação. Porque só dessa forma é que se poderá ganhar a confiança para que os fãs acreditem que o artigo que a editora lhe pretende vender lhe oferece uma mais-valia para além da própria música. É essa tal experiência que pode ser tanto uma caixa de música como um bilhete para um concerto.

2 Filipe Marques { 12-02-2009 às 0:33 }

Enfim, Miguel… Como seria de esperar, estou completamente de acordo.

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