Música, indústria e tendências.

Posts de — Junho 2009

Desportugalidade

Numa altura em que se fala muito de bandas rock portuguesas como Os Golpes e os Pontos Negros, não consigo deixar de pensar que a atenção que se dedica aos diferentes projectos nacionais é um tanto ou quanto arbitrária (ou pior, é um tanto ou quanto suja).

Chamem-me reaccionário, se quiserem, mas parece-me que os Pluto, por exemplo, foram bem menos elogiados do que qualquer uma das novas bandas rock portuguesas. Sim, mesmo com o Manel Cruz à frente do projecto. (O Manel Cruz garante qualidade, algum buzz e as já habituais comparações aos Ornatos Violeta.) Mesmo assim, os Pluto foram educadamente ignorados.

Pessoalmente, pareceu-me desde o início que os Pluto eram bons. Há uns dias, fui ouvir Bom Dia (2004), o único álbum editado pela banda, e continuo a achar o mesmo. As guitarras, os arranjos, o céu nublado e as letras vagas dos Pluto são do melhor que se fez no rock português. Deve faltar-lhes a portugalidade ou uma dessas coisas que se inventam para justificar o mau gosto.

(Vá, estou a exagerar. Mas aquela história de que cada país tem os Marcos Paulos que merece é bem verdade.)

Entretanto, recordem “Entre Nós” que, não sendo a melhor música do álbum, é um bom exemplo do que por lá encontram.

28-06-2009   9 comentários

Este mundo e o outro

O Michael Jackson morreu. A vida dele foi, no mínimo, intrigante. Mas servirá, pelo menos, para fazer ver que, por mais fantástica que seja a música, a indústria que a rodeia pode muito bem dar cabo de uns quantos inocentes.

(E voltei de férias. Desculpem mas não consegui avisar-vos antes de ir.)

27-06-2009   Sem comentários

Acordo entre Universal e Virgin é duvidoso

Por esta altura já devem ter lido qualquer coisa sobre o acordo possivelmente histórico entre a Virgin Media e a Universal Music para a disponibilização do catálogo completo da editora em MP3 em troco de uma mensalidade de custo inferior a dois CDs.

Pois bem, muito rapidamente:

1. Este acordo tem tudo para ser um passo em frente: o acesso total e ilimitado aos catálogos das editoras em troca de uma mensalidade é daquelas coisas que toda a gente com dois dedos de testa propõe há já algum tempo. Ainda assim, não deixa de ser uma pena que este acordo só inclua a Universal, deixando de fora três outras majors e todas as editoras independentes.

2. A Virgin Media, ISP britânico, serve mais ou menos como parceiro tecnológico da editora. O que significa isto na prática? Infelizmente, que a resposta gradual será posta em prática: serão suspensas contas de utilizadores que recorram no download ilegal de música, ficarão com menor largura de manda e, em última instância, poderão perder o acesso à Internet. Mas não se fiquem por esta leitura superficial do assunto. O Miguel Caetano tem feito um excelente trabalho de pesquisa neste campo, se tiverem interesse.

3. Não consigo deixar de pensar que, com apenas uma editora, a tendência para a partilha de ficheiros deverá manter-se como dantes. Resta saber se as outras editoras querem seguir este caminho – e, em caso afirmativo, se se querem juntar a este acordo ou desenvolver os seus próprios acordos isoladamente. Se seguirem caminhos separados, a coisa está condenada ao fracasso.

16-06-2009   Sem comentários

Starfucker, o EP, as músicas e os meus disclaimers

Apesar de terem lançado um álbum de estreia relativamente bem sucedido em 2008, descobri os Starfucker há apenas uns dias, graças ao podcast de indie pop do Indiefeed.

Em teoria, eu não deveria gostar dos Starfucker. Fazem electro-pop inequívoca, brincalhona, à anos 80 e eu não aturo habitualmente este tipo de bandas. Os MGMT safaram-se comigo, é verdade, mas as melodias dos hinos pop “Kids” e “Time to pretend” eram impossíveis de evitar.

Atenção: ao dizer que não deveria gostar dos Starfucker, não quero dizer que goste especialmente deles. Digamos apenas que justificaram a referência aqui, vá. E justificaram-na com “Boy Toy”, uma das músicas do EP Jupiter, lançado no início de Maio. “Boy Toy” é electro-pop, não haja dúvidas, mas tem ali uma sujidade que ajuda a desenjoar da doçura constante. Aproxima-se demasiado da sonoridade de outras bandas que por aí andam mas é gira.

No resto do EP, consigo destacar ainda o tema de abertura “Medicine”, que tem um refrão bastante groovy e um tanto ou quanto viciante, e “Biggie Smalls”, cuja grandiosidade disfarça alguma falta de imaginação mas que ainda assim escapa. O que não escapa é a horrorosa cover de “Girls Just Want to Have Fun”, nem que seja pela ideia. Esta coisa pseudo-cool de ir buscar pop semi-foleira dos anos 80 e fazer versões devia ser proibida.

Depois vêm “Jupiter” e uma remistura de “Rawnald Gregory Erickson The Second” (a versão original está no álbum de estreia) e ponho-me a pensar que é uma pena que o EP não acabe em “Biggie Smalls”.

Jupiter vale por uma ou outra música isolada. Não deixem que o resto vos impeça de ouvir o que este EP tem de bom.

13-06-2009   3 comentários

Para compensar a euforia dos santos populares

Lembram-se de ter dito há quase duas semanas que, se este blog tivesse semanas temáticas, aquela seria a dos Wilco? Pois bem, esta seria a dos Eels.

Não é que tenha falado pouco de Mark Oliver Everett até hoje por aqui. É só porque esta semana o vício voltou em força. E porquê? Primeiro, por causa do novo álbum. Depois, por causa de um álbum que fui buscar por causa do novo: Electro-shock Blues. Já o tinha ouvido, como é óbvio, mas não tinha havido nenhuma espécie de clique. Foi esta a semana do clique, a semana em que o cancro, a morte e os hospitais se fizeram acompanhar de melodias pop em canções agridoces e levemente perturbadas. Fosse pelas já batidas “Climbing to the moon”, “Last stop: this town” ou “3 speed”, pela discreta “Elizabeth on the bathroom floor” ou pela gritada “Cancer for the cure”… esta semana, sem que nada fizesse prever tal coisa, fiquei preso a este álbum gigante.

E depois acenderam-se holofotes e duas canções ganharam um relevo que antes não lhes dava: “Dead of winter” e “P.S. You rock my world” (e que título fantástico!). Uma e outra são belíssimas, com letras entre a deprimência do costume e um certo raio de luz (sobretudo a segunda). Podem ver e ouvir “Dead of Winter” numa versão com quarteto de cordas a acompanhar aqui mesmo. E sim, mais um vídeo de Eels…

12-06-2009   Sem comentários

Sobre os álbuns conceptuais

Tenho pensado muito em álbuns conceptuais. Inicialmente, foi por causa de Hombre Lobo, o novo álbum de Eels. Esta faceta da banda levou-me a dois outros álbuns: Blinking Lights and Other Revelations e Electro-shock Blues. Os temas pouco interessam para aqui – ainda que ambos me atraiam especialmente, o que é bastante mórbido. Hoje, interessa-me a ideia.

O álbum conceptual não é coisa recente, tendo ganho muitos adeptos ali pela década de 1960, com Beatles, Beach Boys e outros tantos a contribuírem fortemente para a causa. O que é directamente influenciado pelo conceito varia muito: letras, voz, instrumentalização, melodias ou tudo junto. Mas tanto faz, desde que o resultado final seja bom.

Pessoalmente, acho que os álbuns conceptuais bons são praticamente mágicos. Se considerarem a depressão/dormência urbana de OK Computer dos Radiohead uma coisa conceptual, por exemplo, o álbum deixa de ser música e passa a ser um mundo, uma outra realidade (que, por acaso, neste caso específico, é a nossa). É mágico.

O Vítor Cunha dizia há pouco no Twitter que o Born to Run, do Bruce Springsteen, “é a melhor lição de história sobre a cultura suburbana americana” e pode muito bem ser verdade. O problema com os álbuns conceptuais, esteja o conceito concentrado na letra, na música ou em todos os aspectos, é que só atingem este nível quando são genuinamente bons. Não há conceito que salve um álbum mau. Sim, mesmo que o conceito seja “robots de 2154″ ou algo do género (as coisas futuristas são sempre mais fáceis de justificar… mas isso não muda nada). Quanto ao conceito propriamente dito, não há regras que possam impor limites, felizmente. O céu é o limite.

Agora… gostava de percorrer os últimos 50 anos e falar-vos dos melhores álbuns conceptuais que foram mostrados ao mundo mas não consigo (maioritariamente por ignorância, confesso). Talvez um dia destes.

11-06-2009   Sem comentários

Eels e o lobisomem

O novo álbum de Eels já está na rua e não consigo deixar de pensar que podia ser pior… e podia ser melhor. Não é que seja, em si, um meio termo – é antes largo demais para o podermos colocar no saco dos fraquinhos, no dos medianos ou no das obras-primas.

Mark Oliver Everett lançou mais um álbum conceptual. Muito provavelmente, é o menos deprimente e mórbido, sobretudo se o compararmos ao genial Electro-shock Blues e ao épico Blinking Lights and Other Revelations.

Sim, E continua a ser um tipo com auto-comiseração para dar e vender mas em Hombre Lobo parece ter esperança. As 12 canções são sobre desejo – está escrito na capa – e é este “olhar para a frente” que faz do álbum algo mais do que a desgraça completa que pauta os restantes discos da carreira dos Eels. Mark Oliver Everett continua a achar que é uma merda, um bicho insignificante, mas em Hombre Lobo também acha que poderia ser melhor. Há pessoas que se agarram a tudo.

Quanto à música propriamente dita, E passeia pelos terrenos que já conhece bem: os ensaios folk do costume (alguns assustadoramente semelhantes a coisas antigas – ou vão dizer-me que “All The Beautiful Things” não é a mesma coisa que “Blinking Lights (For Me)” do último álbum?), as guitarras sujas a piscar o olho à pop/rock mais dançável e as temáticas do costume.

Hombre Lobo não é revolucionário, longe disso. É tão concentrado como Shootenanny!, tão sensível como Beautiful Freak e tão igual a muitas coisas que os Eels já fizeram. Mas é bom, é… bom. As melodias pop são uma doce perversão, como habitual, e canções como “My Timing is Off” e “That Look You Gave That Guy” mostram-no sem grande dificuldade. O álbum está igualmente povoado do rock sujo de uma “Souljacker Part 1″, por exemplo, em “Prizefighter” ou no single “Fresh Blood”.

E depois há o belo do rock’n'roll: “Beginner’s Luck” é provavelmente a melhor música e definitivamente a que mais eleva o espírito de Hombre Lobo. Nesta, a esperança deixa de o ser e passa a ser certeza. Claro que logo a seguir voltam as dúvidas do costume e o álbum acaba com “Ordinary Man”, como que a dizer “pá, estou aqui sozinho mas sei que és capaz de vir a perceber que eu não sou um tipo qualquer”. Pessoalmente, acho que já percebi há algum tempo.

Era difícil manter o nível de Blinking Lights and Other Revelations, acho eu. Mas já deu para perceber que, apesar disso, é difícil sair algo mau dali. Está tudo bem, portanto.

10-06-2009   4 comentários

Bloggers e jornalistas de música

Bloggers e jornalistas de música têm pelo menos uma coisa em comum: pessoas lêem o que eles escrevem. São agentes praticamente incontornáveis para quem faz música e quer promovê-la. Com egos maiores ou mais pequenos, com gostos mais ou menos abrangentes, todos eles ajudam a formar as opiniões de quem gosta de os ler.

Nos últimos anos, com o aumento das alternativas, os críticos de música perderam importância. Os bloggers – ou alguns deles, pelo menos – ganharam dimensão graças a uma ideia que se generalizou facilmente: a de que são livres de pressões e da agenda mediática que faz com que todos os críticos falem das mesmas coisas ao mesmo tempo e, muitas vezes, da mesma forma. Não sei se concordo com esta ideia… mas percebo a lógica. É que, com uma audiência maior, vêm normalmente pressões e responsabilidades.

Se do lado dos consumidores de música a relação com a crítica mudou bastante nos últimos tempos, do lado da indústria… mantém-se bastante semelhante. 

Por exemplo, dou por mim a ter de justificar a minha eventual credibilidade com uma série de coisas insignificantes que consegui durante o meu percurso sempre que quero pedir informações ou o que quer que seja a grande parte dos artistas, editoras e promotoras. Seria muito mais fácil se estes agentes conseguissem visitar um blog e perceber tudo através dos últimos artigos, do tempo de vida e da página de informação sobre o autor. Mas pronto, é o que temos.

Por outro lado, estive há uns dias na RTP em trabalho e fiquei sentado durante meia hora junto a uma sala da Antena 3 e reparei numa série de sacos de plástico da EMI e da Universal que ocupavam um bocadinho de chão. Tendo em conta que a rádio é um meio cada vez menos interessante e desde sempre naturalmente fugaz, acho que a gigante diferença de tratamento não se justifica.

De qualquer forma, cultivar uma relação próxima mas honesta com bloggers e jornalistas continua a fazer todo o sentido no cenário actual. Não confundam uma relação próxima com “amiguismo”. De certa forma, foi isso que trouxe descrédito aos críticos profissionais portugueses. É que Portugal é muito pequeno, sabem?

Acho realmente que dar informação e música a jornalistas e bloggers é muito importante. Primeiro porque poderão, se se interessarem e/ou gostarem do que ouvem, ajudar-vos a chegar a um público que quer saber de música (ao contrário do de uma telenovela, por exemplo). Depois, porque todos fazem parte de redes sociais (reais ou virtuais) que incluem certamente mais uns quantos elementos similares, o que poderá ter um efeito multiplicador benéfico.

Enfim, vocês sabem que há apenas 40 ou 50 pessoas por dia a aparecer aqui no blog. Ainda assim, estou certo, são 40 ou 50 pessoas que gostam do que lêem e/ou do autor (obrigado). No limite, são pessoas que ligam minimamente ao que digo. E isso tem de representar alguma coisa. Acontece o mesmo com jornalistas especializados. A diferença? Maior audiência, certamente; menor capacidade de influenciar cada um. Além disto, as limitações de espaço, de tempo, de tudo… são prejudiciais. E aí está algo que não me afecta substancialmente.

Reforço: os jornalistas e os bloggers especializados são importantes para os que querem que a sua música chegue às pessoas. Pessoalmente, se gostar do que fazem, terei todo o gosto.

07-06-2009   2 comentários

Complicações

A nova música dos Broken Social Scene não é bem deles nem é bem nova mas é o mais perto que vamos ter disso antes do lançamento do tal novo álbum. Chama-se “Complications” e é uma cover dos The Clean. Faz parte de uma compilação de músicas da Merge Records de que já falei levemente aqui.

Soa menos Broken Social Scene do que seria de esperar mas não vão encontrar tudo limpinho e no lugar, que isso seria quase impossível. Imaginem antes que era uma música em colaboração com os The Cure. Ou então ouçam, que se calhar é melhor.

06-06-2009   Sem comentários

Yo La Tengo lançam novo álbum em Setembro

Nos últimos tempos, tem havido por aí boas notícias a sair. Depois dos Broken Social Scene e dos Radiohead, desta feita são os Yo La Tengo que falam de um novo álbum. No entanto, ao contrário das outras duas bandas, estes já têm título, data de lançamento e artwork para o novo álbum. Falta o alinhamento.

Sai a 8 de Setembro e chama-se Popular Songs.

04-06-2009   Sem comentários