Música, indústria e tendências.

Desportugalidade

Numa altura em que se fala muito de bandas rock portuguesas como Os Golpes e os Pontos Negros, não consigo deixar de pensar que a atenção que se dedica aos diferentes projectos nacionais é um tanto ou quanto arbitrária (ou pior, é um tanto ou quanto suja).

Chamem-me reaccionário, se quiserem, mas parece-me que os Pluto, por exemplo, foram bem menos elogiados do que qualquer uma das novas bandas rock portuguesas. Sim, mesmo com o Manel Cruz à frente do projecto. (O Manel Cruz garante qualidade, algum buzz e as já habituais comparações aos Ornatos Violeta.) Mesmo assim, os Pluto foram educadamente ignorados.

Pessoalmente, pareceu-me desde o início que os Pluto eram bons. Há uns dias, fui ouvir Bom Dia (2004), o único álbum editado pela banda, e continuo a achar o mesmo. As guitarras, os arranjos, o céu nublado e as letras vagas dos Pluto são do melhor que se fez no rock português. Deve faltar-lhes a portugalidade ou uma dessas coisas que se inventam para justificar o mau gosto.

(Vá, estou a exagerar. Mas aquela história de que cada país tem os Marcos Paulos que merece é bem verdade.)

Entretanto, recordem “Entre Nós” que, não sendo a melhor música do álbum, é um bom exemplo do que por lá encontram.

9 comentários

1 ramitos { 28-06-2009 às 22:23 }

finalmente alguém que me compreende… Hoje em dia a imprensa só dá destaque a bandas que cumpram uns certos requisitos que todos já nos apercebemos quais são…

Além disso também se sente que as cunhas e as elites abrem muitas portas…

2 Filipe Marques { 28-06-2009 às 23:53 }

Sim, isso e o facto de termos um mercado pequeníssimo que leva toda a gente pelos mesmos caminhos.

Depois, é um país de amigos.

3 Rui Martins { 29-06-2009 às 16:18 }

Ontem fui ver Manuel Cruz a Ovar (projecto Foge Foge Bandido que é ainda maior que Pluto), foi muito bom:
http://rmartins.org/musica/foge-foge-manel

4 Filipe Marques { 29-06-2009 às 23:19 }

Ainda não ouvi bem o disco mas parece-me sofrer do mesmo problema de que sofrem todos os discos duplos com 80 músicas (será que este plural é possível?): it’s all over the place. Ainda assim, já consegui perceber que há lá pérolas. Agora é uma questão de ver se sobrevivem.

5 Raquel Ribeiro { 30-06-2009 às 9:15 }

Filipe, o álbum estreante dos Pluto teve uma imensa projecção radiofónica; não me parece que tenha sido tão ignorado como dizes. Talvez por não se ter discutido a sua (não-)portugalidade não tenhas prestado atenção ao que dele se falou…? Lá por o campeonato ter sido diferente, não quer dizer que não tenha ido a jogo…

6 Filipe Marques { 30-06-2009 às 22:58 }

Não há comparação. Passar na rádio não é o mesmo que ser discutido, elogiado, etc. E nem é a portugalidade ou não que aqui está em causa. É o barulho, o hype em torno de projectos que o não merecem.

Apesar de serem o aspecto central do post, nesta discussão são apenas um exemplo. Eles são bons, dê por onde der. Como eles, há certamente por aí muitos outros… mas “todos” (os que interessam) falam dos mesmos. Se calhar são mesmo bons.

7 Vanessa Quitério { 07-07-2009 às 23:26 }

Ao ler este post fizeste-me voltar ao passado: lembrei me dos Ornatos, do Manuel Cruz e dos Pluto. Comprei esse album assim que saiu e devorei cada música como se fosse um respirar necessário. Partilho da opinião que foi um projecto inovador e que desapareceu assim do nada. Parece-me que também não lhe deram a exposição que devia ou, por outro lado, passou com o tempo… é assim mesmo que as coisas se passam: uma música com meio ano já é apelidada de velha. Mas voltando aos Pluto, o projecto deve ser recordado. A quem não conhece aconselho. E graças a ti, por te lembrares deles, vou desempoeirar o cd que tenho ali na estante e voltar aos bons velhos tempos de o ouvir até riscar (metaforicamente, matar o Manuel Cruz de cansaço, por tão repetidamente me entoar o “Só mais uma vez” ou “Sexo Mono”.

8 Pedro Pereira { 08-07-2009 às 13:09 }

Concordo inteiramente!
Tenho muitas saudades destes Pluto!

9 Pedro Rocha { 10-07-2009 às 9:06 }

Pois eu vi, há cerca de dois meses, um concerto do manel com o Jorge Coelho ex-guitarrista do ZEN (fui groupie da banda durante a adolescência) de música experimental. Noise basicamente.

Não gostei.

Mas acho que o Manel é o melhor letrista português da actualidade.

Abraço,

Pedro

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