Música, indústria e tendências.

Não é arte, é outra coisa

Até onde é que isto vai?

Depois de a Wired nos ter dado a saber há alguns meses num excelente artigo que as letras das Pussycat Dolls (e de outros) estão à venda, agora é a vez da Insland Def Jam disponibilizar o booklet do novo álbum da Mariah Carey a empresas interessadas (como já referi ontem, de resto, em poucas palavras).

A música de Mariah Carey e das Pussycat Dolls interessa-me muito pouco, como devem imaginar Ainda assim, vejo que há abertura a este tipo de idiotices na indústria da música e isso preocupa-me. Ninguém poderá negar que os responsáveis pelas maiores editoras do mundo têm feito um péssimo trabalho… mas isto está a chegar a um nível um tanto ou quanto ridículo.

Não tenho nada contra a chamada monetização. Se há coisas que podem ser postas a render, tudo bem. Em parte, é para isso que serve o merchandising e é exactamente por isso que existe o licenciamento para televisão, publicidade e cinema. Nada, nada contra. Mas este tipo de acções implica pegar na obra de arte e adaptá-la a quem oferecer mais. É uma subversão que, apesar de ser certamente recorrente (até ao nível das próprias pressões dos A&R das editoras), não deixa de ser interessante e… desconfortável. Não é arte, é outra coisa.

Quais serão os próximos passos? É que já só consigo imaginar os músicos a entrarem em palco vestidos à jogador de futebol com publicidade na parte da frente, nas costas, nos braços, nos calções, nas meias… Enfim.

5 comentários

1 Pedro Pereira { 05-08-2009 às 10:36 }

Coitadinhos deles. Uma idiotice.
Espero que a moda não pegue.

2 Bernardo ON { 06-08-2009 às 15:48 }

Em 2004, estive num concerto dos Black Eyed Peas no Porto. A ocasião: Arranque do Euro 2004 nessa mesma cidade. O promotor: Puma. Sim, a marca de sportswear.
O espectáculo esteve cheio de energia e de público, e pude desfrutar dele junto ao palco mas com imenso espaço para dançar. Quem chegasse antes de banda, ia começar a estranhar precisamente essa espécie de corredor vip, colado ao palco e separado do resto do público por vedações e seguranças – era só para os convidados de um torneio de futebol de praia com famosos a decorrer nessa altura.
Resumindo: a marca agarrou nos meninos em Londres (ou assim) e meteu-os num avião para dar um concerto de promoção à marca, gratuíto para os espectadores. E lá apareceram eles, num palco digno das festas da cidade e vestidos da cabeça aos pés de Puma. Para benefício dos eventuais cegos entre o público, Fergie e companhia foram gritando o nome da marca ao longo da performance, incluíndo-a em algumas letras e atando o espectáculo com ocasionais “Go Puma, Go Puma” ao som da bateria e guitarra.
Isto tudo para te dizer Filipe: The future is now.

3 Filipe Marques { 07-08-2009 às 0:09 }

Claro, claro.

Por acaso não conhecia esse episódio – e como esse haverá certamente muitos. É o que temos.

Felizmente, ainda é um fenómeno controlado e que está presente em muita da má pop que se ouve na rádio e afins… mas não propriamente em quem faz música propriamente dita. Receio é que os miúdos, que vão crescendo com este tipo de práticas, comecem a achar isto perfeitamente natural. Aí é que já não há muito a fazer.

4 Pedro Pereira { 07-08-2009 às 13:05 }

Enquanto essas modas se mantiverem restringidas a esses artistas, não me chateio. Plástico por plástico…

5 Rui Manuel Martins { 07-08-2009 às 13:54 }

Separemos os conceitos música e show business, que nada têm em comum. Este tipo de notícia deixa-me enjoado, não há pinga de arte no que estes pseudo-artistas fazem e ainda têm a lata de se auto-intitularem de músicos e de virem falar do trabalho árduo que é a composição das suas “obras-primas”, não há valores nem ideais, nem intenções fora as de forro monetário. E depois ainda se junta uma legião de fans que fazem uma adoração conjunta a este tipo de seres do marketing, pior que uma religião só mesmo a MTV.

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