As músicas, os lugares e as coisas que fazemos
A primeira música que me fez pensar sobre isto foi “The People That We Love” dos Bush (má referência, eu sei). Na altura, fartava-me de jogar Need For Speed e a música era o tema do jogo. Tocava e tocava enquanto eu me concentrava em fugir à polícia ou simplesmente em não bater com o carro. Bons velhos tempos.
Não conheço a explicação mas parece-me natural que associemos músicas a lugares ou actividades. A música e o lugar são independentes, claro está, mas a repetição simultânea de ambos relaciona-os algures no nosso cérebro. É quase pavloviano.
Nos últimos dois anos, tem acontecido muito. Acontece-me porque tenho tido períodos em que ando muito de transportes públicos (curiosamente não é tão comum quando ando de carro), o que torna mais fácil criar relações deste género, acho eu. De repente, lembro-me de três casos.
O primeiro caso é o de In Rainbows. Na altura do lançamento, tinha começado a trabalhar em Paço de Arcos e apanhava sempre um autocarro da Vimeca que saía do Marquês de Pombal. E apanhava o mesmo autocarro para regressar a Lisboa. Calhou que tivesse ficado sem computador pela mesma altura e fiquei preso ao álbum dos Radiohead durante mais de um mês. Era a única música que ouvia. Passado algum tempo, apercebi-me, ao ouvir o disco noutros contextos, que músicas como “Faust Arp” ou “Reckoner” me levavam de volta àquele autocarro, à passagem por Queijas, aos minutos de auto-estrada, à difícil subida do Monsanto. Ainda hoje, passados quase dois anos, mantenho (ainda que mais levemente) esta associação, apesar de ter ouvido as músicas mais umas dezenas de vezes entretanto.
Os outros dois casos, também relacionados com transportes públicos, são relativamente parecidos. Passado algum tempo de ter começado a ir de carro para o trabalho, decidi começar a ir de comboio para poupar algum dinheiro e diminuir um pouco o stress provocado pela condução (sobretudo de manhã). Deve ter sido por essa altura que descobri Dear Science, dos TV On The Radio – como sabem, o meu disco favorito de 2008. Ouvi-o vezes sem conta, por cima de um livro ou simplesmente da agradável paisagem da linha de Cascais. Aconteceu o mesmo já este ano com os Land of Talk. Em ambos os casos, juro que quase consigo sentir aquele cheiro típico dos comboios (acho que tem alguma coisa a ver com as pastilhas dos travões… mas não garanto), o embalo dos 90 quilómetros por hora constantes entre Alcântara e Algés e entre Algés e Paço de Arcos. Literalmente, fazem-me lembrar a praia de Caxias, os prédios relativamente verdes mesmo antes de chegar a Paço de Arcos ou os calhaus todos ali ao pé do Dafundo.
Tanto quanto consigo dizer, estas coisas vão perdendo força com o tempo mas não deixa de ser curioso. E não consigo detectar muitas tendências. Por exemplo, tenho ideia que não crio habitualmente relação nenhuma entre uma canção específica e o tempo que passo em casa ou no carro. Porquê? Não posso dizer que saiba.
Há algum tempo que andava para escrever sobre isto. Estou certo de que não sou só eu que padeço desta condição. Uns quantos de vós, estou certo, terão exemplos mais curiosos que os meus. Sintam-se à vontade para os partilhar.

5 comentários
Eu, por acaso, acho que só tenho cerca de três ou quatro momentos deste género – e apenas um deles é digno de ser sempre recordado, que foi quando comecei a ganhar interesse pelos Boards of Canada e o seu Psy Ambient (ou Psy Chill ou outros vinte milhões de estilos que os designa, mas o mais correcto parece-me ser o primeiro).
Estava eu a caminho das Sete Cidades para acampar durante uns dias e, como de costume, a ouvir música. Mas desta vez estava a ouvir com outra pessoa, um amigo meu. O que estavamos a ouvir era a Aquarius, dos Boards of Canada e este momento ficou-me para sempre na cabeça: a nossa ida para as Sete Cidades no autocarro a ouvir esta música com o verde todo à nossa volta, o ar puro.
PS – recomendo vivamente os Boards of Canada. Embora seja música electrônica, não deixa de ser excelente!
A qualidade da música não tem nada a ver com o género (excepto o chill out, que é sempre mau). Boards of Canada é porreiro.
Penso que é geral este tipo de sentimentos (uma série de associações gravadas na memória). Tenho p.e. uma associação directa do álbum “Ao Vivo No Maria Matos” de Sérgio Godinho a duas viagens (iguais) de autocarro quando regressava a casa, não sei porquê das 2 vezes ouvi este album…
Existe ainda a associação a pessoas, ou a momentos…chama-se a isto o lado afectivo da música, e é um dos importantes paradigmas de avaliação pessoal da música ou da arte em geral. Gostei do artigo.
Filipe, sei que não, mas muitas das pessoas adoram etiquetar as coisas e, de seguida, destruí-las num só golpe. Milhões de pessoas.
Anyway, o chill out nem sempre é mau, há um ou outro grupo que se safa.
Quanto ao chill out, é uma pequena embirração pessoal.
De resto, sim, etiquetar é muito habitual. Mas também é quase parte da natureza humana.
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