Posts de — Dezembro 2009
Numa nota mais pessoal – a década
Numa altura em que, como acrescento à já habitual azáfama das listas dos melhores álbuns do ano, a Web e as revistas se enchem de tops da década, parece-me adequado falar sobre o assunto de forma diferente. Isto é sobre os últimos dez anos e a música vistos daqui.
Sou um tipo relativamente novo, como sabem, pelo que vamos todos ignorar 2000, 2001, 2002 e grande parte de 2003. Primeiro porque tinha mau gosto numa idade em que isso começa a ser inaceitável. Depois porque a minha relação com a música tornou-se bem mais interessante a partir do momento em que as minhas bandas sonoras começaram a mudar. Posto isto, é apenas normal que olhe para esta década como a da descoberta.
Começou com umas dicas de colegas de faculdade e acabou como se vê. Não me imagino sem os meus Radiohead nem sem todas as micro-fases de descoberta musica por que passei – Coldplay, Jeff Buckley, Tool, Mogwai, Sigur Rós, Broken Social Scene e por aí fora. É óbvio que só um bocadinho do que fui ouvindo era música do momento; as outras décadas deram uma ajuda.
O hiddentrack.net, um projecto que lancei com um amigo, ajudou à festa, bem como este e outros blogs que fui alimentando ao longo dos anos. Fui obrigado a procurar informação constantemente, o que só me aguçou o apetite. E ainda tenho um longo caminho a percorrer.
Há uns tempos, uma amiga descreveu-me como uma pessoa unidimensional. Às vezes receio, de modo grosseiro, que as coisas estejam realmente nesse ponto. Vejam, por exemplo, que quase todos os livros que recebi no meu aniversário e no Natal (não foram muitos, mas ainda assim…) são sobre música. Já para não falar dos discos.
Não consigo deixar de pensar que a culpa desta minha unidimensionalidade é, em parte, desta década. Mas não há muito que possa fazer.
29-12-2009 Sem comentários
O melhor de 2009 – álbuns
Este é o segundo de dois posts sobre o melhor da música em 2009.

Depois das canções, os álbuns. O ano não foi famoso mas, com esforço, conseguimos sempre encontrar uma ou outra pérola.
10 – Metric – Fantasies
É o primeiro álbum dos Metric que ouço com atenção e a coisa resultou. Pop/rock descomprometida e uma vocalista fantástica fazem com que este seja possivelmente um dos álbuns simples mais completos do ano. Não revolucionou nada mas a qualidade do todo está bem acima da média.
9 – Slaraffenland – We’re On Your Side
Indie rock 101: guitarras, bateria semi-descontrolada, vozes aparentemente despreocupadas e (aqui é que me apanham sempre) instrumentos de sopro. Não conhecia a banda e foi uma bela surpresa. Como podem ver pela posição do álbum nesta lista, de resto. Aconselho seriamente.
8 – The Antlers – Hospice
Desta não estava à espera. Já conhecia In The Attic Of The Universe (antes de ser editado comercialmente, esteve online para download gratuito) e não tinha ficado especialmente impressionado. Mas em Hospice, Peter Silberman esmerou-se e deu um passo de gigante que levou a crítica a reconhecer em The Antlers uns The Arcade Fire cheios de calmantes. O álbum não entra bem à primeira… mas entra.
7 – Dan Deacon – Bromst
Quem passa por aqui habitualmente sabe que eu não sigo habitualmente caminhos musicais muito esquisitos. Sou um tipo da pop, de gostos relativamente simples. Mas Bromst atingiu aqui qualquer coisa. As vozes cheias de hélio, as batidas aceleradas ou o excelente início com “build voice” são apenas alguns motivos para que este álbum me tenha conquistado. E foi um um belo fruto do meu artigo a queixar-me da qualidade da música…
6 – Grizzly Bear – Veckatimest
A minha relação com os Grizzly Bear é um pouco estranha. Ouço-os sempre com muito gosto mas os álbuns acabam por me passar ao lado. São muito bons mas normalmente não têm grande impacto em mim. Com Veckatimest, a coisa mudou um pouco e a culpa não é só da espectacular “Two Weeks”, é do ambiente não totalmente sombrio, dos ecos e dos arranjos à big band dos anos 50 caída em desgraça. Algo me diz que não me estou a explicar bem mas pronto.
5 – Tiny Vipers – Life On Earth
“Dreamer” foi parar à lista das melhores canções de 2009 mas não é, felizmente, caso isolado num álbum que passará certamente despercebido a muitos. Life On Earth é um álbum para se ouvir em exclusividade. Não poderia recomendá-lo mais.
4 – Wilco – Wilco (The Album)
Não é um Yankee Hotel Foxtrot – possivelmente mais nenhum álbum dos Wilco chegará a esse patamar. Mas, independentemente deste histórico, este Wilco (The Album) não merece ser ignorado. Os Wilco continuam a ser os melhores, os mais inspirados do seu género e não têm conseguido desiludir-me (não que pareçam estar a tentar). Venha de lá o próximo.
3 – Bill Callahan – Sometimes I Wish We Were An Eagle
Este álbum tem uma das melhores aberturas do ano, com “Jim Cain”. E depois não vem por aí abaixo, como tantos outros. A voz quente e grave de Bill Callahan trata de manter tudo no sítio. O fumo inebriante que descrevi na altura em que ouvi o álbum pela primeira vez mantém-se vivo, bem como a aparente mistura entre folk, soul e jazz que tempera todas as canções. Um álbum obrigatório.
2 – Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix
Este álbum é um alívio. De toda a pop/rock que me passou pelos ouvidos este ano, não houve nada mais fresco e agradável do que isto. Wolfgang Amadeus Phoenix é a prova de que se pode fazer óptima música da maneira tradicional. Talvez seja um tanto ou quanto reaccionário da minha parte… mas não consigo deixar de ficar contente por ouvir temas como “Armistice” ou “Lisztomania” e ver que ainda há coisas que estão nos sítios certos.
1 – Danger Mouse & Sparklehorse – Dark Was The Night
Eu tinha avisado. Este ano, não era possível fazer melhor que isto. Danger Mouse, Sparklehorse, David Lynch e todos os vocalistas convidados (inclusivamente Vic Chestnutt, que morreu no dia de Natal) fizeram um trabalho fantástico. O ambiente estranho dos filmes de Lynch passou na perfeição para a música e o resultado final é uma coisa esquisita, que varia entre a doçura de uma “The Man Who Played God” e a agressividade de “Angel’s Harp”, passando por tudo o que há para passar no meio disto. “Revenge”, “Jaykub”, “Daddy’s Gone”, “Grain Augury”, “Little Girl”… se os vossos ouvidos ainda não encontraram estas músicas por aí, só posso ter pena de vocês.
Esqueçamos por momento os álbuns que ficaram por ouvir… e que lá para o final de 2010 reconhecerei como sendo bastante superiores a estes que aqui estão. Hoje, são estes.
28-12-2009 2 comentários
Feliz Natal, etc.
A minha proposta para a consoada: rock’n'roll natalício.
24-12-2009 Sem comentários
O melhor de 2009 – canções
Este é o primeiro de dois posts sobre o melhor da música em 2009.

Chegou aquela altura do ano. Para mim, o 2009 da música foi atípico a quase todos os níveis: ouvi menos música e menos artistas, fui a pouquíssimos concertos e escrevi sobre música muito menos vezes do que gostava. Portanto perdoem o aparente caos (conceptual?) destes dois posts. Para já, fiquem com as minhas canções favoritas de 2009. Escusado será dizer que esta lista serve para hoje. Amanhã talvez mude de ideias.
10 – Los Campesinos! – “The Sea Is A Good Place To Think Of The Future”
Depois de editarem dois álbuns em 2008, os Los Campesinos! decidiram poupar-se para 2010. “The Sea Is A Good Place To Think Of The Future” é a única amostra que nos deram em 2009 de Romance Is Boring, o próximo álbum. Épica e grandiosa – pelo menos em intenções -, “The Sea Is A Good Place To Think Of The Future” só pecou por não ter vindo logo agarrada a um álbum cheia de canções do género. Download.
9 – Metric – “Sick Muse”
Confesso: adoro quase tudo o que a Emily Haines faz. A culpa, claro, é dos Broken Social Scene mas a verdade é que, tanto a solo como com os Metric, só muito dificilmente ela desilude. “Sick Muse” condensa um pouco esta minha ideia. Pop empacotada na perfeição. Vídeo.
8 – The Decemberists – “The Hazards of Love 2″
É possível que a minha relação com a música dos The Decemberists seja mais ou menos perversa. É raro gostar de um álbum por inteiro – eles são uma espécie de reis do prog-country – mas há sempre uma música que me agarra. Em The Crane Wife, era “The Crane Wife 3″. Em The Hazards of Love, temos “The Hazards of Love 2″. Sim, eu sei que esta coisa dos números é um pouco ridícula mas o que é que querem? Stream.
7 – Bat For Lashes – “Siren Song”
Sim, eu sei que toda a gente gosta muito é de “Daniel”. Mas eu prefiro esta. É repetitiva e todos os instrumentos disparam na mesma direcção, em crescendo, até ao ponto em que se torna impossível crescer mais e a coisa pára. Reina uma sensação de que vem aí uma fantástica rainha do gelo. E olhem que para esta ideia me entrar na cabeça é preciso algo especial. Neste caso, uma canção. Stream.
6 – Wilco – “One Wing”
É certamente uma das músicas que mais ouvi este ano. Estradas alentejanas, finais de tarde de fim-de-semana. “One Wing” é isso. Stream.
5 – Tiny Vipers – “Dreamer”
Descobrir Tiny Vipers foi como uma epifania. Guitarra acústica e voz às vezes chegam mesmo. Vídeo.
4 – Radiohead – “Harry Patch (In Memory Of)”
Não podem dizer honestamente que estão surpreendidos, pois não? Quer dizer, a haver surpresa nesta minha escolha, só se for o facto de não estar em primeiro… Mas deixemos de lado essa questão mais formal. Pode não vir incluída num álbum mas “Harry Patch (In Memory Of)” é grande. Marca a estreia dos Radiohead neste formato orquestra (pelo menos no que diz respeito a material editado). De letra e intenções simples e com uma melodia lindíssima, esta canção só podia estar nesta lista. Stream.
3 – Danger Mouse & Sparklehorse feat. Wayne Coyne – “Revenge”
Apenas um exemplo das muitas canções brilhantes que saíram de Dark Was The Night, um álbum de Danger Mouse, Sparklehorse e David Lynch recheado de surpresas. Em “Revenge”, Wayne Coyne, vocalista dos The Flaming Lips, fala-nos da irreversibilidade e das consequências da vingança. A música aconchega-nos com uma secção rítmica quente, como que a dizer “não liguem, que ele está a brincar!”. É a introdução perfeita a um álbum perverso e intenso como Dark Was The Night. Stream.
2 – Thom Yorke – “Hearing Damage”
Mais um suspeito do costume. Ainda que me surpreenda muito esta insistência da saga Twilight em editar bandas sonoras de grande nível, não posso deixar de elogiar as boas escolhas. Thom Yorke é um dos nomes mais sonantes da banda sonora de New Moon e “Hearing Damage” uma das melhores músicas do ano. No filme, não passa despercebida. Na aparelhagem, no computador ou no iPod, muito menos. Se mais não houvesse, o baixo bastaria. Mas há mais. Stream.
1 – Bon Iver – “Blood Bank”
Melhor música do ano. Não sei que mais posso dizer. A guitarra começa calmamente e vai crescendo aos poucos, à medida que a canção ganha pulso. O resto surge naturalmente. É estranho mas, pela segunda vez consecutiva, a minha música favorita do ano tem a assinatura de Bon Iver. Stream.
Tal como no ano passado, não foi difícil eleger o primeiro lugar. Se as canções pudessem andar à porrada, “Re: Stacks” ainda ganharia a “Blood Bank”, claro. Mas não por muito.
23-12-2009 Sem comentários
Yo La Tengo em Portugal
Tenho andado a perder demasiados concertos este ano pelos mais diferentes motivos. A ver se a coisa muda em 2010.
Em Março, os Yo La Tengo vão actuar duas vezes em Portugal: a primeira é no dia 14 na Aula Magna, em Lisboa; a segunda é no dia seguinte na Casa da Música, no Porto.
Na bagagem trarão, até prova em contrário, Popular Songs, o seu mais recente álbum de originais mas também mais de 25 anos de boa música. Disse e volto a dizer que têm um dos melhores guitarristas do mundo, Ira Kaplan.
Os bilhetes custam 23 euros. A ver se compro o meu rapidamente.
20-12-2009 Sem comentários
Mudança, ondas e outros pensamentos soltos
Não estou certo de perceber bem o que se passa com o negócio da música gravada. Quer dizer, sei que a coisa não anda famosa – apesar de ainda se baterem recordes com relativa facilidade – mas também sei que tenho visto muita informação contraditória nos últimos anos.
Foco-me por momentos nas majors. Porquê? Porque são potenciais agentes de mudança óbvios, já que têm dimensão e dinheiro para pôr as coisas a andar.
A dimensão e o dinheiro são, paradoxalmente, os principais motivos para a estagnação criativa da indústria. As coisas estavam boas como estavam antes (para elas) e o esforço financeiro das principais editoras tem ido directamente para a manutenção do status quo. Mas esta luta contra o mundo tem tido resultados desapontantes (para elas).
Claro que houve evoluções – o crescimento dos downloads pagos, mais campanhas de mid-price (pelo menos em Portugal notou-se um crescimento bastante acentuado) e afins, melhor oferta, etc. – mas as principais editoras foram na onda quando, pelo dinheiro e pela dimensão que têm, deveriam ser a onda.
E agora? Agora estamos num momento perigoso. Enquanto lêem este texto, há uns quantos lobbyistas profissionais a tentarem influenciar os legisladores europeus no sentido de pôr em prática leis mais apertadas de combate à partilha de música. Imposições aos ISPs, vigilância mais apertada… No fundo, caminhamos para uma Internet menos neutra do que o desejável, para um cenário mais próximo do de caóticos filmes futuristas de ficção-científica. Para mim, é surpreendente que não se ouça falar sobre isto senão nos sítios do costume – e que esta quase crítica sirva também para mim.
É que as coisas estão mesmo a andar.
12-12-2009 1 comentário
