Posts de — Agosto 2010
Fuck you
Eu não sou muito de embarcar nestas coisas mas desta vez não consigo fugir. Cee Lo Green tem feito muita coisa gira, nomeadamente com Danger Mouse nos Gnarls Barkley, mas isto agora é outra coisa.
Esta música tem uma característica bastante especial: chama-se “Fuck You”. Este single antecipa The Lady Killer, que tem lançamento marcado apenas para Dezembro, e tem feito furor na Web. E eu consigo dizer apenas que percebo porquê.
Tudo nesta música é divertido. A melodia, o funk e, claro, a letra (que podem acompanhar no vídeo). Acho que era a isto que o Rei Ghob se referia quando gritava “Energia!”. “Fuck you” é um desabafo, é aquilo que todos pensaríamos naquelas circunstâncias. Agora já se pode dizer, desde que a música tenha tanta pinta como esta.
Vejam o vídeo.
Para estes lados, será certamente uma das músicas do ano.
25-08-2010 3 comentários
Sobre a alta fidelidade
Durante quase um ano, as melhores colunas em minha casa foram as do televisor. Imaginam o pesadelo?
Pois que o pesadelo acabou. Comprei uma aparelhagem. Daquelas à maneira. Neste momento, é constituída por um amplificador, um leitor de CD e duas colunas, tudo da Yamaha. Não esperem uma review, que não sou um audiófilo. Mas posso dizer que esperei demasiado tempo por graves destes…
Ainda quero completar isto. A curto prazo, vou comprar um gira-discos. A médio prazo, talvez um pré-amplificador para o gira-discos, se for preciso. A (muito) longo prazo, mais colunas, definitivamente.
Dado o meu estado de euforia ontem à noite (felizmente testemunhado por… bem, ninguém), creio que a minha felicidade é fortemente condicionada pela alta fidelidade. Voltou o prazer de percorrer as torres de CDs à procura da coisa certa para o momento, voltou aquele momento sublime em que o CD cai na gaveta do leitor. Voltei a hábitos que requerem outra velocidade, um ritmo mais lento. Todos sabemos que não digo adeus ao iTunes nem ao iPod. Mas isto é outra coisa.
Estreei a aparelhagem com “Fake Plastic Trees”, dos Radiohead. Pareceu-me adequado começar com a minha música favorita, que gosto muito de momentos simbólicos e de coisas parvas. E agora, pronto, estou feliz.
24-08-2010 4 comentários
Tomorrow Morning
A primeira vez foi uma epifania. Aquele Meet The Eels: Essential Eels – Vol. 1, 1996-2006 mudou tudo. A ideia de tudo ter começado quase por acaso torna a minha relação com a música dos Eels bastante especial. E agora, passados mais de dois anos da primeira audição, posso dizer com toda a certeza que esta é, ali ao pé dos Broken Social Scene, dos The National e dos inigualáveis Radiohead, uma das minhas bandas favoritas.
Tomorrow Morning é o fim de uma trilogia começada com as canções de desejo de Hombre Lobo, de 2009, e continuada com a velhice de End Times, editado já este ano. Mas Tomorrow Morning é também um fim com sabor a princípio.
Hombre Lobo mostrava-nos um Mark Oliver Everett predador, um homem dominado (e quase descontrolado) pela subida da sua auto-estima, pelo “acho que consigo melhor”. End Times, por outro lado, já nos deixava mais descansados: E não tinha ido a lado nenhum e continuava tão deprimido como sempre, desta vez com a velhice como pano de fundo.
Tomorrow Morning encerra a trilogia com esperança. E esta é uma conclusão fácil de atingir: basta olhar para os títulos de quase todas as canções do álbum. Tomorrow Morning tem um sorriso de orelha a orelha. Quase consigo ouvir a Nina Simone cantar “It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me… and I’m feeling good.”
Agora… o que são aquelas três primeiras músicas? A primeira é uma introdução. Mas a segunda e a terceira também parecem ser introduções. São relativamente estranhas e muito calmas. Os arranjos de cordas e os salpicos de electrónica contribuem para uma ideia de um longo mas firme nascer do sol. Mas quem é que precisa de três introduções?
Claro que depois vem “Baby Loves Me” e a esta hora já temos de estar mais que acordados. Por um lado, respiramos de alívio com aquela pop/rock suja a que os Eels nos habituaram. Por outro, “Baby Loves Me” é certamente a primeira música de sempre a ter pombos electrónicos. A sério. E esta canção é Eels no seu nível mais básico: o mundo está contra ele… mas a baby dele ama-o e é mais esperta que os outros. Pois está claro.
Depois a coisa começa a ficar séria. O contido single “Spectacular Girl” antecede a calminha “What I Have To Offer”. E esta leva-nos por caminhos folk até à simplesmente brilhante “This Is Where It Gets Good”. É bem provável que esta seja uma das melhores canções de toda a trilogia. E parece que o título não podia ser mais apropriado. Aquela batida entra sem pedir licença e não há como escapar-lhe. E engana, a vaca. Absolutamente imprescindível.
Pausa para respirar.
Quanto ao conceito que suporta Tomorrow Morning, atinge o ponto mais alto em “Oh So Lovely”. Nenhum outro tema ilustra tão bem o que deu vida a este álbum. Em “Oh So Lovely”, a esperança ganha corpo e transforma-se numa espécie de alegria incontida bastante bem transmitida pela forma como Everett canta e pelos arranjos grandiosos. E depois há a letra: “If the grass is not greener, you know what it needs / I knew that I had to throw down some seeds” sintetiza tão bem o sentimento geral de Tomorrow Morning que me faz sentir inútil por estar a escrever este texto gigante sobre o álbum.
E a atitude positiva continua durante mais algumas canções, com destaque para os anti-blues de “Looking Up” e para o amor simples e incondicional de “I Like The Way This Is Going”. Nesta canção típica de Eels (E acompanhado da guitarra eléctrica a repetir acordes), há um momento que faz as delícias de um cínico como eu: “I like to watch TV with you / There’s really nothing that I would rather do”. A ideia de um amor que consiste, mesmo que em parte, em ver televisão é aparentemente feia. Mas a mim fazem-me falta mais músicas que incorporem assim o amor no dia-a-dia. Nem tudo é passear contigo, amar e ser feliz. Às vezes vê-se televisão. E isso é bom.
“Mystery Of Life” encerra Tomorrow Morning mas deixa-o em aberto, como seria de esperar da manhã do dia seguinte. Fica a esperança e o pensamento positivo. Fica o “Yes, we can” e a ideia de que a vida tem a sua piada. E isto é uma coisa que, mesmo nos momentos mais tristes e deprimentes da música dos Eels, nunca desaparece realmente. Em Tomorrow Morning, não só não desaparece como, pela primeira vez em década e meia de música, não dá espaço a mais nada. Musicalmente, há aqui muita coisa nova: os arranjos de cordas a fazerem lembrar a digressão Eels with Strings; as brincadeiras electrónicas. O resultado, esse, é o do costume: um álbum de momentos excelentes.
Este é um feel good album. Tenham um bom dia.
22-08-2010 5 comentários
Ghosts Of The Great Highway
Eu deveria estar a falar de Admiral Fell Promises mas ainda não me habituei à ideia de Mark Kozelek ter privado o álbum de outros instrumentos que não a guitarra dele. Admiral Fell Promises é um álbum a solo.
Não me apetece falar de álbuns a solo. Apetece-me ir buscar Ghosts Of The Great Highway, o primeiro álbum da banda, e ouvi-lo até à exaustão. Entrar de mansinho no espaço folksy e acolhedor de “Glenn Tipton” e deixar que “Carry Me Ohio” me leve ao colo até à épica “Salvador Sanchez”. Duvidar do meu discernimento quando ouvir repetidamente “Gentle Moon”. E parecer que já ouvi “Pancho Villa” em qualquer lado – nomeadamente porque é uma versão alternativa de “Salvador Sanchez”.
Mark Kozelek não sai do mesmo registo. Os Sun Kil Moon são praticamente um rebranding dos Red House Painters. A formula é quase sempre a mesma. Músicas longas, guitarras, baixo e bateria e letras por vezes quase ininteligíveis (ou, pelo menos, difíceis de interpretar). Foi assim com os Red House Painters ao longo dos anos 90 e tem sido assim com os Sun Kil Moon nos últimos anos.
É engraçado pensar que, depois de 12 ou 13 anos com os Red House Painters, Mark Kozelek acertou à primeira com os Sun Kil Moon. Ghosts Of The Great Highway foi e é um excelente álbum. Daqueles que apetece ouvir nas tardes de domingo. Um disco cheio de passado e arrependimento. Cheio de bagagem.
06-08-2010 1 comentário
