Posts de — Setembro 2010
Eels no Coliseu: blues, rock e pouco mais

Por um lado, os Eels não pisavam um palco português há nove anos. Por outro, lançaram três álbuns em apenas ano e meio sem que nenhum conseguisse entusiasmar por aí além. Não podia, portanto, haver expectativas extremamente elevadas para este concerto. Mesmo que a vontade de os ver novamente por cá fosse quase insuportável, era simplesmente impossível esperar este mundo e o outro.
E, infelizmente, confirmou-se: com um alinhamento que só a espaços se afastou da trilogia constituída por Hombre Lobo (2009), End Times (2010) e Tomorrow Morning (2010), os Eels deram um bom concerto de rock’n’roll e blues… mas foi só isso.
Com um fato-macaco branco, óculos escuros, um lenço na cabeça e a melhor barba de sempre, Mark Oliver Everett (ou E.) mostrou apenas nariz e boca durante a noite toda – parece que o homem é menos importante que a música. E o concerto começou bem, com uma versão despida de “Grace Kelly Blues” e E. sozinho em palco. Depois veio a melancólica “Little Bird” e uma (demasiado) longa série de temas dos últimos três álbuns, interrompida apenas pelas habituais covers que os Eels normalmente oferecem aos seus fãs. “She Said Yeah”, dos Rolling Stones, “Summertime”, de George Gershwin e a grande “Summer in the City”, dos The Lovin’ Spoonful, foram bem recebidas pelo público mas… faltava ali qualquer coisa.
Quando não estavam a fazer blues rock ou algo do género, os Eels lá acalmavam e tocavam coisas mais simples e sossegadas, como “In My Dreams” ou “Spectacular Girl”, o mais recente single. O problema? Continuavam sem sair dos últimos três álbuns.
A determinada altura, lá nos deixaram ouvir uma versão absolutamente transfigurada e acelerada da outrora agridoce “My Beloved Monster”. Entre as vítimas de transfiguração, encontramos também “Mr. E.’s Beautiful Blues”, que ficou mais perto de uns Beach Boys do que seria de esperar, e “I Like Birds” – rápida, barulhenta e suja quando antes era a coisa mais cândida do mundo.
Um dos pontos altos do concerto dos Eels em Lisboa foi certamente a dupla “Dog Faced Boy” e “Souljacker Part 1”, ambas retiradas de Souljacker. Rock do mais granulado que E. e companhia fizeram em 15 anos de carreira.
Mas sabe a pouco. Num concerto onde arranjam tempo para tocar “Talkin’ ‘bout Knuckles” (uma música cantada por Knuckles, o baterista…) e uma série de covers, não cabem as melhores canções dos Eels? Se olharem para Meet The Eels: Essential Eels – Vol. 1, 1996-2006, por exemplo, encontrarão apenas quatro temas dos que foram ouvidos esta noite. “Novocaine for the Soul”, o maior êxito, não apareceu. Electro-shock Blues, o melhor álbum da banda, não teve direito a um tema sequer. Blinking Lights and Other Revelations, que me lembre, também não. Não faz sentido e sabe a pouco.
Depois temos “Paradise Blues” e “Looking Up”, tema que antecedeu o encore, a repetirem fórmulas no mesmo concerto. O encore, curto, trouxe-nos, felizmente, duas das melhores canções de Tomorrow Morning – “I Like The Way This Is Going” e “Oh So Lovely” – mas… um encore apenas com canções do último álbum? Que tipos subversivos, pá.
Foi o último concerto da digressão europeia dos Eels. E foi um bom concerto de rock’n’roll e blues… mas foi só isso e é quase impossível não ficar desiludido. Uma banda com o repertório dos Eels tinha tudo para dar um concerto memorável, épico, gigante. Não foi o caso.
(Este texto foi publicado primeiro no FestivaisPT e a fotografia que o ilustra é do Vasco Pereira, que tem mais umas quantas aqui.)
20-09-2010 3 comentários
A Apple apresentou o Ping e eu acho que não quero saber

Pronto, agora é o Ping. Depois do relativo insucesso do Genius, uma ferramenta relativamente interessante que a Apple decidiu introduzir no iTunes há algum tempo, a Apple vira as agulhas para a vertente social da música. O objectivo? Vender mais música, claro está. E lançar as bases para os outros tipos de produtos (aplicações, filmes, séries, livros), fomentando igualmente as vendas.
Não tenho nada contra o desejo da Apple de ganhar mais dinheiro com a venda de música, vídeo, aplicações e livros online mas… para que raio serve o Ping?
Segundo a Apple, serve para seguirmos os nossos artistas favoritos e os nossos amigos para descobrir de que música estão a falar, o que estão a ouvir e (sobretudo, digo eu) o que estão a comprar no iTunes. Boring.
Agrada-me muito a integração de diversas funcionalidades num só programa. O Genius, por exemplo, apesar de não ser a minha principal ferramenta de descoberta de música, às vezes é útil e engraçado. Não é, no entanto, nenhum Last.fm. E o Ping também não.
A minha abordagem ao lançamento de novos produtos e serviços é muito simples: só preciso que as empresas acrescentem alguma coisa. Eu sei que nem tudo pode ser a penicilina mas porque é que continuam a perder tempo com este tipo de coisas? O Ping é uma funcionalidade gratuita e não acrescenta nada. Se não acrescenta nada, não vale a pena perder tempo.
A Apple quer o mesmo de sempre: dar tudo às pessoas a partir do iTunes para que elas não precisem de ir a outros sítios. Mas se isso foi apelativo na ligação entre o iTunes (a loja e o media player) e o iPod, agora não é. E não é porque não acrescenta absolutamente nada, não é especialmente conveniente… e conseguimos encontrar bem melhor noutros sítios. O Last.fm, o Facebook e o Twitter são apenas os casos óbvios. Ainda por cima, o Facebook é agora, a propósito do argumento da conveniência de ter tudo no mesmo programa, um concorrente de peso.
Como se isto não bastasse, a Apple está em modo control freak relativamente à inscrição de artistas no Ping, como fazem com as aplicações para iPhone e assim. Vamos ver se conseguem ir a algum lado com isto.
11-09-2010 Sem comentários
The Suburbs
Estava a dever-vos estes parágrafos. O álbum dos Arcade Fire já saiu há algum tempo e prometi a mim mesmo que ia escrever sobre ele, apesar da relação aberta que mantenho com a banda (será que eles sabem?).
Os Arcade Fire são os reis do hype. Funeral, lançado em 2004, causou um pandemónio em 2005: a música deles era demasiado tensa, demasiado libertadora, demasiado descomprometida, demasiado boa. Confesso que demorei um bocadinho a perceber… mas o hype justificava-se perfeitamente.
Felizmente, a expectativa não deu cabo de Neon Bible, o segundo álbum da banda. Claro que não foi a mesma coisa – não há amor como o primeiro e tudo o resto. Mas o álbum era muito bom à mesma.
Depois da adolescência e da morte de Funeral e do fim dos tempos de Neon Bible, chega The Suburbs, um álbum menos virado para a escatologia e mais para o impasse. Neste disco, são muitas as canções que visitam a noção de impasse, de terra de ninguém cheia de gente. Às vezes com uma ideia clara do caminho a seguir, às vezes não.
O som clássico dos Arcade Fire continua bem representado – estou certo de que Bruce Springsteen ficaria orgulhoso com um tema como “Ready to Start” – mas a banda canadiana dá um passo extra em direcção à pop, abraçando alguns sons não tão habituais por aquelas paragens. Ouçam a (só) aparentemente doce electro-pop de “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)” e digam-me que não tenho razão. Como diria José Mourinho, “you can’t” (ler sem pronúncia inglesa, por favor).
The Suburbs tem os seus problemas. O mais óbvio é o tamanho. Ninguém quer ouvir 16 músicas num álbum (a não ser que esse álbum seja dos Radiohead – aí podem fazer discos especiais de 3 horas, que tanto me faz). Além de ninguém querer ouvir 16 músicas, a probabilidade de algumas delas serem um tanto ou quanto manhosas é relativamente elevada. E no caso deste álbum, confirma-se. Dispensavam-se coisas como “City With No Children” ou “Deep Blue”. Não é que sejam absolutamente intragáveis… mas não são canções como estas que fazem dos Arcade Fire uma das melhores bandas da actualidade.
Valham-nos canções como “Suburban War” (aquele final!) ou “Month of May” para compensarem. E tenho de destacar o tema que melhor condensa o espírito suburbano do álbum: “Empty Room”. Tem a urgência e aquele “não sei muito bem o que vou fazer agora” que já existiam um pouco em Funeral. E tal como em Funeral, esta quase contradição entre não saber o que fazer e fazer o que quer que seja já toma conta e guia o álbum por paisagens suburbanas, coisa moderna. Musicalmente, “Empty Room” é uma das mais simples e directas que os Arcade Fire já editaram: guitarras, baixo, violinos e bateria a toda a velocidade do princípio ao fim.
Não liguem muito às minhas comparações com Funeral. Não está, de todo, ao mesmo nível. The Suburbs dispersa-se muito e não consegue levar-nos verdadeiramente para aquele mundo de centros comerciais vazios até perder de vista. É um álbum cheio de momentos interessantes, é verdade, mas os Arcade Fire são uma das melhores bandas da actualidade. De bandas assim, queremos este mundo e o outro. Eles deram-nos os subúrbios. Não chega.
05-09-2010 3 comentários
