Categoria — Indústria discográfica
EMI e Warner com novo modelo de negócio
Chama-se “aleatoriedade” e é o novo modelo de negócio da EMI e da Warner, duas das maiores editoras discográficas do mundo.
A EMI anda às voltas ao ralo há já tempo suficiente para me parecer que, não tarda muito, adeus EMI. Já ninguém sabe muito bem quem manda na EMI – será o Citigroup ou a Terra Firma? – mas algo me diz que tanto faz. Contrataram um novo CEO há mais de um ano e meio e as coisas continuam na mesma – uma desgraça.
A Warner acaba de anunciar uma coisa brilhante: que vai deixar de licenciar músicas dos seus artistas para serviços de streaming gratuitos como o Spotify. Traduzido por miúdos, acabou-se a música da Warner em streaming gratuito legal, que já representa certamente uns trocos ao final do mês – sobretudo no Reino Unido, onde o Spotify começou a revolucionar este sector.
Recordo que o mercado dos discos continua em queda e por isso proponho que deixem também de vender MP3 no iTunes, na Amazon e afins. Para quê, afinal? Assim como assim, não vale a pena… Vamos todos morrer um dia.
(Perdoem a falta de rigor deste texto mas é mais um desabafo que outra coisa.)
Um pouco mais a sério: a EMI está no que me parece ser um caminho irreversível para o esquecimento – guerras, prejuízos e decisões estratégicas muito duvidosas chegam e sobram para carregar as culpas. Já a Warner conseguiu surpreender valentemente com esta decisão. Parece que o streaming gratuito é mau para a venda de discos, diz Edgar Bronfman Jr., CEO da Warner Music.
Andam a brincar às editoras.
11-02-2010 1 comentário
This Book is Broken
Li há poucos dias – em apenas duas sessões – um excelente livro sobre uma das minhas bandas favoritas: os Broken Social Scene. Estive para comprar This Book Is Broken: A Broken Social Scene Story, de Stuart Berman, durante muito tempo e já andava para o ler há alguns meses mas só no final da semana passada decidi pegar nele. Claro que, a partir do momento em que comecei, não consegui parar de o ler.
O livro tem uma estrutura muito interessante: cada capítulo tem uma introdução de uma ou duas páginas e o resto é preenchido por citações de membros dos Broken Social Scene e de outras pessoas próximas da banda. Depois, encaixam-se as citações nos sítios certos e a narrativa flui de forma agradável.
A primeira metade é praticamente toda dedicada à cena musical independente de Toronto desde os anos 90 até ao início da década passada. Do ponto de vista da indústria discográfica, é interessante a forma como Stuart Berman – amigo da banda – expõe o que se vivia no Canadá em meados dos anos 90: basicamente, as bandas indie canadianas que conseguiam chamar a atenção da indústria conseguiam ter algum sucesso no Canadá inicialmente e tornavam-se quase todas impossíveis de exportar para os mercados que interessavam realmente – Estados Unidos e Reino Unido -, o que acabou por desiludir algumas bandas em busca de algo mais. Por sua vez, esta situação contribuiu fortemente para que a cena indie de Toronto se fosse tornando um tanto ou quanto desinteressante.
No entanto, com o aparecimento de bandas como os Do Make Say Think, Constantines, Metric e Stars, entre outras, e sobretudo com a explosão dos Broken Social Scene nos Estados Unidos em 2003 (graças a esta crítica do Pitchfork), a coisa foi dando a volta. Hoje, Toronto tem uma das cenas musicais mais interessantes do mundo. Pessoalmente, é bem capaz de ser a minha favorita.
Sobre os Broken Social Scene, é engraçado ficar a conhecer os pormenores: a forma como cada um entrou no grupo, a influência de Kevin Drew enquanto elemento líder nato da banda e a de Brendan Canning enquanto músico mais experiente e talentoso, o trabalho de produção para muitos (inclusivamente alguns membros da banda) duvidoso de Dave Newfeld no último álbum e muitas outras coisas. Relativamente a este último ponto, já agora, posso dizer que, apesar de gostar muito do You Forgot It In People, é de Broken Social Scene – o duvidoso – que gosto mais, mesmo que esteja propositadamente enfraquecido. Se quiserem que me prolongue sobre isto, avisem, que escrevo um artigo exclusivamente dedicado ao assunto.
Enfim, a minha relação emocional com a música dos Broken Social Scene afecta certamente a minha opinião sobre o livro mas não quis deixar de partilhar. Se puderem, comprem – tem muitas fotos!
26-01-2010 Sem comentários
Fnac vs. Amazon: uma ida às compras
Ontem à noite dei um salto à Amazon.co.uk e decidi fazer uma coisa que nunca tinha feito: explorar as pechinchas da secção de CDs. Não tivesse eu algum tino e a encomenda teria resultado em mais de 20 discos. Fiquei-me pelos oito. Com portes (e mais um livro no carrinho), paguei pouco menos de 70 euros.
E isto fez-me voltar a pensar numa coisa em que já pensei muitas vezes: abandonar definitivamente a Fnac. Ainda há uma semana lá deixei dinheiro por causa de uns cheques Fnac que tinha recebido no Natal. Por 39 euros, levei para casa dois CDs. Um deles foi a edição especial (com DVD) do último álbum dos Phoenix, que me custou pouco menos de 18 euros, creio. E aqui está a ponte perfeita entre estas duas realidades: na Amazon, a edição básica (julgo eu) do disco – que na Fnac custa 16 – está à venda por pouco mais de cinco euros.
Comprar música na Fnac não faz sentido. Custa demasiado dinheiro e a experiência não é especialmente gratificante. Para os que – como eu – gostam de passear por lojas de música, dêem um salto à Carbono, à Jo-Jo’s e à Flur, por exemplo.
Se as diferenças fossem de dois euros ou assim, ainda percebia. Os cinco ou seis dias de espera na Amazon incomodam um pouco – pelo menos quando comparados com o imediatismo da compra numa loja como a Fnac. Mas com diferenças que chegam aos 10 euros para coisa que custam menos de 20 não há argumento que resista.
Por exemplo: ontem comprei o From The City, Stories From The Sea, da PJ Harvey, por €3.40. No site da Fnac custa €13.90. Acho que nem é preciso dizer mais nada… mas vou fazê-lo!
Tomem lá uma tabela comparativa de preços (em euros):

* preço da edição normal
n/d – não disponível nos resultados da pesquisa
Além dos dados óbvios que aqui vêem, devo destacar que mais de metade dos discos eram apresentados no site da Fnac como não estando disponíveis no momento (apesar de apresentarem preço). Destaco igualmente que todos os preços da Amazon foram convertidos em euros por excesso e arredondados a valores a terminar em 0 e 5 cêntimos. Acrescento ainda que os portes têm um valor de €12.55, mais ou menos.
Analisando a tabela, ficamos a saber que se eu tivesse ido à Fnac comprar estes discos, saía com três álbuns a menos da Fnac e deixava lá €68.65. Isto significa que saía da Fnac com menos discos e menos dinheiro do que o que aconteceu ontem por ter feito compras na Amazon – mesmo contabilizando os portes. Ficava ela por ela se contarmos com o livro que também encomendei (e os livros davam outro capítulo nesta história… mas aí nada bate o Book Depository). Claro que, para estas contas, vou esquecer o dinheiro que gastaria em estacionamento no Colombo ou no Vasco da Gama, por exemplo, até porque poderia muito bem ir a pé até ao Chiado.
Já não tinha muitas dúvidas mas esta comparação dá-me exemplos concretos e auto-explicativos. Sim, isto foi uma espécie de epifania. Comprar música na Fnac não faz mesmo sentido.
06-01-2010 19 comentários
Mudança, ondas e outros pensamentos soltos
Não estou certo de perceber bem o que se passa com o negócio da música gravada. Quer dizer, sei que a coisa não anda famosa – apesar de ainda se baterem recordes com relativa facilidade – mas também sei que tenho visto muita informação contraditória nos últimos anos.
Foco-me por momentos nas majors. Porquê? Porque são potenciais agentes de mudança óbvios, já que têm dimensão e dinheiro para pôr as coisas a andar.
A dimensão e o dinheiro são, paradoxalmente, os principais motivos para a estagnação criativa da indústria. As coisas estavam boas como estavam antes (para elas) e o esforço financeiro das principais editoras tem ido directamente para a manutenção do status quo. Mas esta luta contra o mundo tem tido resultados desapontantes (para elas).
Claro que houve evoluções – o crescimento dos downloads pagos, mais campanhas de mid-price (pelo menos em Portugal notou-se um crescimento bastante acentuado) e afins, melhor oferta, etc. – mas as principais editoras foram na onda quando, pelo dinheiro e pela dimensão que têm, deveriam ser a onda.
E agora? Agora estamos num momento perigoso. Enquanto lêem este texto, há uns quantos lobbyistas profissionais a tentarem influenciar os legisladores europeus no sentido de pôr em prática leis mais apertadas de combate à partilha de música. Imposições aos ISPs, vigilância mais apertada… No fundo, caminhamos para uma Internet menos neutra do que o desejável, para um cenário mais próximo do de caóticos filmes futuristas de ficção-científica. Para mim, é surpreendente que não se ouça falar sobre isto senão nos sítios do costume – e que esta quase crítica sirva também para mim.
É que as coisas estão mesmo a andar.
12-12-2009 1 comentário
O MySpace anda às compras
Isto está a tornar-se ridículo.
Não sei muito bem o que é que eles andam a fazer. Depois do iLike, agora é a vez do imeem. Ainda não está confirmado mas tudo indica que o MySpace vai comprar o serviço gratuito de streaming de música imeem.
Eles andam às compras mas ainda ninguém conseguiu perceber muito bem o que é que eles querem fazer. Só muito dificilmente o iLike e o imeem são exemplos de projectos lucrativos… portanto não é por isso. É possível que eles tenham alguma ideia do caminho a seguir – e de como é que a tecnologia e os serviços do imeem e do iLike estão envolvidas nisto tudo – mas até agora parece tudo muito colado com cuspo. E isto já dura há uns dois anos…
O MySpace estava perfeitamente ligado à comunidade de músicos e agentes da indústria musical mas dava ares de querer impedir que o Facebook dominasse o mundo (até porque, nos Estados Unidos, o MySpace sempre foi mais do que uma rede social para músicos). Começou então a atacar em todas as frentes. E perdeu tudo o que podia perder… e cada vez mais está a perder a música. Ironicamente, começaram agora a admitir que perderam a guerra e que desejam concentrar-se na música. Será tarde demais?
O que significa esta compra do imeem? Não sei bem. Pressuponho que queiram integrar o imeem nos seus serviços… mas porquê, se o negócio não tem compensado? Será que a agregação de tecnologias e serviços será suficiente para devolver a vida ao MySpace? Não sei. Mas não consigo deixar de pensar que parece cada vez mais que o MySpace é um barco todo furado de onde vão tirando baldes e baldes de água sem conseguir resultados. Às tantas, mais vale que se afunde de uma vez.
17-11-2009 1 comentário
O iTunes LP vai ser um flop

Imagino que já tenham ouvido falar ou lido qualquer coisa sobre o novo produto lançado pela Apple: o iTunes LP, uma espécie de formato digital de álbum com extras incorporados. Uma espécie de DVD sem disco, portanto.
Ou muito me engano ou ninguém se vai meter para esses lados. Pessoalmente, não vejo quaisquer vantagens. OK, há uma série de extras… mas que podiam facilmente ser disponibilizados de outra forma. E para aqui nem interessa se estamos a falar de extras gratuitos; a questão nem chega a esse ponto.
É simples: o iTunes LP responde a uma necessidade que não existe.
14-09-2009 7 comentários
Não é arte, é outra coisa
Até onde é que isto vai?
Depois de a Wired nos ter dado a saber há alguns meses num excelente artigo que as letras das Pussycat Dolls (e de outros) estão à venda, agora é a vez da Insland Def Jam disponibilizar o booklet do novo álbum da Mariah Carey a empresas interessadas (como já referi ontem, de resto, em poucas palavras).
A música de Mariah Carey e das Pussycat Dolls interessa-me muito pouco, como devem imaginar Ainda assim, vejo que há abertura a este tipo de idiotices na indústria da música e isso preocupa-me. Ninguém poderá negar que os responsáveis pelas maiores editoras do mundo têm feito um péssimo trabalho… mas isto está a chegar a um nível um tanto ou quanto ridículo.
Não tenho nada contra a chamada monetização. Se há coisas que podem ser postas a render, tudo bem. Em parte, é para isso que serve o merchandising e é exactamente por isso que existe o licenciamento para televisão, publicidade e cinema. Nada, nada contra. Mas este tipo de acções implica pegar na obra de arte e adaptá-la a quem oferecer mais. É uma subversão que, apesar de ser certamente recorrente (até ao nível das próprias pressões dos A&R das editoras), não deixa de ser interessante e… desconfortável. Não é arte, é outra coisa.
Quais serão os próximos passos? É que já só consigo imaginar os músicos a entrarem em palco vestidos à jogador de futebol com publicidade na parte da frente, nas costas, nos braços, nos calções, nas meias… Enfim.
04-08-2009 5 comentários
Mas que ideia mais estúpida
Parece que a Island Def Jam está a pensar em vender espaço publicitário nos booklets do próximo álbum de Mariah Carey.
Sim, a sério.
04-08-2009 Sem comentários
Pacman fala de downloads – em repeat, aparentemente
Pequena grande actualização: Parece que este artigo já tem algum tempo (O Miguel Caetano diz que isto já aí anda desde 2007). Parece que a Fnac costuma usá-lo. Bem, não podemos dizer que não se mantenha actual…
Carlos “Pacman” Nobre publicou um artigo sobre downloads legais e ilegais no site da Fnac a propósito da compilação Novos Talentos Fnac 2009. Um artigo onde chama gulosa à Fnac – não de forma absolutamente directa, claro, mas ainda assim tem a sua piada.
Embora me tenha parecido que dá ao artigo, aqui e ali, um tom paternalista – sobretudo quando refere, no final, a questão dos “meios para pagar” o download legal -, o vocalista dos Da Weasel diz algumas coisas relevantes:
- os artistas fazem dinheiro com os concertos, não com os discos;
- 80% da música que compra é no iTunes;
- desde que os downloads legais apareceram, deixou de fazer downloads ilegalmente;
- tem pena que as editoras “não tenham aberto a pestana mais cedo” para os downloads legais.
Não são grandes novidades. São, no entanto, importantes… porque são ditas por um membro de uma das mais bem sucedidas bandas portuguesas dos últimos anos, uma pessoa do sistema.
12-07-2009 Sem comentários
The Pirate Bay vendido. E agora?
Ora aqui está uma coisa que eu não esperava. A notícia tem uns dias mas, mais do que a notícia propriamente dita, interessa perceber o que podemos esperar com este negócio.
Os 5,5 milhões de euros poderão servir certamente para a indemnização que os responsáveis pelo site foram condenados a pagar à indústria discográfica e do cinema. Ainda há um recurso, pelo que não é certo que tenham de utilizar o dinheiro para esse fim. Apenas outro pormenor: a venda não está absolutamente fechada – mas as coisas estão bem encaminhadas.
Mas… e agora, o que acontece ao maior tracker de BitTorrent? Uma coisa é certa: vai ser encerrado. As últimas notícias dão conta de que o espírito do site deverá manter-se mas noutros moldes. Assim, sem um tracker próprio, talvez se torne semelhante ao Mininova, por exemplo, ou aposte em novas tecnologias de partilha de ficheiros. Mas quem sabe…
E se o espírito da coisa não se mantiver? Simples. As pessoas partem para outra.
Nenhum dos utilizadores do TPB vai comprar mais discos ou filmes por causa disso… mas parece que a indústria do entretenimento ainda não conseguiu compreender – só assim se justifica a constante perseguição. A partilha de ficheiros foi uma das melhores coisas que aconteceu à música nas últimas décadas: o acesso facilitado a milhares de artistas anteriormente condenados ao anonimato abriu portas a uma autêntica revolução cultural. O problema é que, no meio disto tudo, as editoras optaram por se afastarem da revolução… a um ponto em que quase não fazem parte dela. E é uma pena porque aqueles anos todos de experiência poderiam enriquecer ainda mais esta experiência.
Mas fujo do assunto. O The Pirate Bay é um símbolo e as pessoas temem que, afinal, tudo isto não tenha passado de um esquema para ganhar uns trocos. Mas um site não é a revolução, é apenas um… site.
Assim como assim, o paradigma já mudou.
02-07-2009 4 comentários
