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Se o arrependimento matasse: 6 canções que foram más decisões

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Este artigo foi publicado originalmente no Strobe.

Todos temos dias maus. Nuns dias acordamos maldispostos, noutros vamos azedando à medida que as horas passam. E às vezes não há outro remédio senão aguentar os golpes que nos vão desferindo ao longo do dia e esperar que o dia seguinte corra melhor.

Mas todos sabemos que os dias maus têm consequências, certo? Seja porque lixámos qualquer coisa no trabalho, porque respondemos torto a alguém ou porque ficámos a olhar para um qualquer exame para o qual não estávamos mentalmente disponíveis. O dia seguinte até pode ser melhor mas o que está feito, feito está… e às vezes fazemos coisas que no dia seguinte não vêm nada a calhar.

Acontece o mesmo na música. Há por aí artistas e bandas maravilhosos que têm todos os motivos para se orgulharem da música fantástica que fazem e fizeram, artistas e bandas que influenciaram gerações e tornaram este mundo um bocadinho melhor com aquilo que criaram. Mas no melhor pano cai a nódoa… e é para as nódoas que vamos olhar hoje.

Acho que esta é a altura certa para dizer que o título é um bocado enganador. Na realidade, não faço ideia do que aconteceria a estes artistas e bandas se o arrependimento matasse. Talvez alguns nem estejam arrependidos de terem trazido a público canções destas, não sei. Mas uma coisa é certa: foram más, más, péssimas decisões.

6. R.E.M. – “Shiny Happy People”

Os R.E.M. não são das minhas bandas favoritas – longe disso – mas normalmente não me custa ouvi-los nem nada do género. Têm grandes momentos espalhados ao longo dos anos, da óbvia “Losing My Religion” à se calhar não tão óbvia mas ainda assim bastante boa “Imitation Of Life”. Quer dizer, excepto quando fazem disparates como convidar Kate Pearson, a senhora dos B-52’s, para cantar uma canção tão estupidamente feliz que só pode ter sido composta por Michael Stipe e companhia com segundas intenções. Ou pelo menos com ironia.

Mas não é só pelo tema que “Shiny Happy People” está nesta lista. O principal problema aqui é mesmo o facto de Kate Pearson ter uma voz tão abrasiva que só dá vontade de partir para a violência. Além disto, a música parece ter sapos. Sim, como a segunda praga do Egito. A canção é assim tão má.

E não me façam falar do vídeo…

5. Blur – “Crazy Beat”

Se os Oasis e o Crazy Frog tivessem um filho e esse filho decidisse seguir o exemplo dos pais e fazer da música o seu ganha-pão, “Crazy Beat” seria o resultado. Felizmente, os Blur anteciparam-se altruisticamente para evitar esse cenário aterrador e lançaram eles a canção. Uma canção que começa com o eloquente verso “Crazy beat, crazy beat, yeah, yeah” só pode melhorar… mas nunca poderá ir longe. E isto não é o tipo de coisa que se possa dizer frequentemente dos Blur. Aliás, basta ouvir “Out of Time”, a canção que antecede este disparate em Think Tank, para perceber que há ali qualquer coisa que não bate certo. Quase que aposto que foi por isto que eles acabaram.

4. The Beatles – “Yellow Submarine”

Os Beatles são uma das bandas mais populares e influentes de sempre. Criaram algumas das melhores canções alguma vez ouvidas e parecem condenados a agradar a quase toda a gente, de uma maneira ou outra. Mas vou arriscar dizer que pouco disso se deve à brilhante voz de Ringo Starr em “Yellow Submarine”. Mas esqueçam a voz e ouçam a música.

Consta que é uma canção infantil. Eu acrescento: é uma das maiores perdas de tempo alguma vez registadas na História da Música. Lamento que sejam os Beatles – quanta ingratidão da minha parte, não é? – mas não estou interessado nas vossas justificações. “A letra é irónica”, poderão dizer. Ou ainda “na verdade, o significado é extremamente profundo e tu és um ignorante”. Tudo bem – embora duvide muito dessa coisa do significado profundo (vão inventar coisas relacionadas com drogas, não é?). Nada disso resiste a uma audição da música.

Deixem-me resumir-vos: envolve marinheiros que vivem bastante bem num submarino amarelo e a determinada altura há uma banda (durante apenas breves segundos). Já está.

3. Pink Floyd – “The Dogs Of War”

Alguém falou em bandas influentes? Não sei se já ouviram falar destes miúdos mas estiveram 15 anos (741 semanas seguidas) no top 200 da Billboard com um disco chamado Dark Side Of The Moon. E sabem que mais? Acho que acabei de descobrir porque é que pararam de vender aqueles discos todos. A resposta só pode ser “The Dogs Of War”, lançada nove meses antes, que parece mais uma paródia aos Pink Floyd do que uma canção deles propriamente dita. O início dramático, os sintetizadores, os coros e os sopros fazem todos lembrar alguma coisa anterior deles… mas em não tão bom como seria de esperar. Ah, e o tema é a guerra e assim, portanto sabem que o assunto é sério. Mas é tão exagerada que um tipo fica a pensar que só pode ser a gozar.

2. Radiohead – “How Do You?”

A pior canção da melhor banda de sempre só podia sair de Pablo Honey. Nunca me vão ouvir dizer mal do álbum propriamente dito mas qualquer disco que tenha uma música tão idiota como “How Do You?” está condenado a coxear pelo mundo fora à procura de redenção. As pessoas tendem a bater um bocado na “Creep” e eu até percebo – a angústia adolescente é sempre algo fácil de criticar – mas se é de sentimentos adolescentes que estão à procura, não vão mais longe: “How Do You?” é a vossa resposta. A canção podia resumir-se da seguinte forma: “ele há gajos mesmo idotas”. E pronto, estava feito. Escusávamos de passar pelo momento desconfortável de ver um compositor brilhante como Thom Yorke a tentar rimar “wants” com “belong” (e a falhar redondamente). Mas pronto, os Radiohead sempre ganharam um novo jogo para os álbuns seguintes (li isto num livro sobre eles) – chamaram-lhe “Spot the ‘How Do You?’”.

Parece divertido, certo? E além disso resultou.

1. Bruce Springsteen – “Queen Of The Supermarket”

Não é que Bruce Springsteen tenha uma carreira absolutamente inatacável e limpinha. Mas há limites. Quando ouve discos dos anos 80, um tipo desculpa mil e uma coisas e até se dá ao luxo de gostar desta ou daquela canção pouco aconselhável. Mas “Queen Of The Supermarket”, lançada há uns quatro anos, é difícil de justificar. A canção deve ter sido extremamente importante para Bruce Springsteen combater um qualquer bloqueio de escritor (“Não sei sobre o que escrever. Já sei, vou praticar com a minha ida ao supermercado e vou fingir que estou apaixonado pela menina que lá trabalha.”) mas acho que leva um pouco longe demais aquela coisa de cantar sobre os subúrbios e o estilo de vida americano.

É difícil escolher entre os pedaços de brilhantismo literário que povoam esta canção mas vou ter de destacar coisas como “I’m in love with the queen of the supermarket”, “A dream awaits in aisle number 2” ou “Though her company cap covers her hair”. Porque, pronto, a vida é assim mesmo. Um dia estamos no corredor número dois, no outro atrás da caixa registadora. Sobretudo quando se é a rainha do supermercado.