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NOS Primavera Sound 2015: o balanço

NOS Primavera Sound 2015

NOS Primavera Sound é dado a grandes expectativas. Normalmente, geram-se uns dias antes do anúncio do cartaz… porque o cartaz da edição espanhola do festival é anunciado uns dias antes. E é sempre maior e melhor, claro. Mas uma pessoa fica a sonhar.

Pois que este ano não me deixei enganar. Não liguei ao anúncio do cartaz de Barcelona e aguardei serenamente pelo cartaz português. Quando finalmente foram anunciados os nomes, ao contrário de anos anteriores, não fiquei a pensar em como faltava esta e aquela banda. Achei o cartaz pobre em grandes nomes mas fiquei muito, muito satisfeito com uma série de bandas e artistas de segunda linha. E foi assim que me convenceram.

Não andei semanas e semanas a sonhar com o festival. Na realidade, nem das coisas mais práticas tratei antecipadamente, tendo comprado o bilhete e tratado do hotel apenas um dia antes. Com isto quero dizer que não andei a alimentar expectativas; mantive-as num nível saudável, peguei no carro e fui para o Porto.

Os melhores concertos

Vi 21 concertos (ou bocadinhos de concertos) em três dias: Mikal Cronin, Mac DeMarco, FKA Twigs e Interpol no primeiro dia; Banda do Mar, Yasmine Hamdan, Giant Sand, Patti Smith, José González, Sun Kil Moon, Belle & Sebastian, Antony & The Johnsons, Run The Jewels e Jungle no segundo dia; e Manel Cruz, Xylouris White, The Thurston Moore Band, Foxygen, Damien Rice, Death Cab For Cutie e The New Pornographers no último dia.

Tivemos direito a muito boa música durante os três dias mas eu destaco os meus três preferidos:

3. Death Cab For Cutie

Os Death Cab For Cutie estavam a dever-nos um concerto, depois de terem falhado a primeira edição do festival em 2012 por causa do mau tempo. Não sendo um fã inabalável dos últimos trabalhos da banda, tinha medo que se focassem no material mais recente… mas acabaram por dar um concerto equilibrado e, consequentemente, quase ao meu jeito. Pessoalmente, precisava de mais coisas de Transatlanticism Plans para ser totalmente feliz mas o tempo não dava para tudo. Tive de me contentar com temas como “I Will Possess Your Heart”, “Cath…”, “The New Year”, “Soul Meets Body” e, contra as minhas expectativas pessimistas, a perfeita “Transatlanticism”. Desconfio que, se tivessem tocado apenas esta, o concerto entraria à mesma no meu top 5. É para verem o quão boa foi o raio da canção a encerrar o concerto.

2. Sun Kil Moon

Estava com medo que Mark Kozelek dedicasse uma hora da sua vida a matar-nos lentamente com as canções de Universal Themes mas, felizmente, só o último quarto de hora é que teve disso (e uma delas, “This Is My First Day And I’m Indian And I Work At A Gas Station”, nem é das piores). Foi o concerto mais estranho e genuíno que vi no festival. Foi, também, a primeira vez que vi um concerto de Sun Kil Moon sem que Mark Kozelek tivesse nas mãos uma guitarra acústica. Mas adiante: foi muito, muito bom. Com Steve Shelley numa das baterias, os Sun Kil Moon tocaram um set relativamente curto (oito canções) mas muito cheio de grandes momentos. O primeiro foi a quase raivosa “Richard Ramirez Died Today Of Natural Causes”. O segundo foi também o mais desconfortável (é um hábito dele): Mark Kozelek insistiu em chamar ao palco Yasmine Hamdan para cantar com ele “I Got You Babe” (de Sonny & Cher, claro). O problema: ela não lida muito bem com o Inglês… e não conhecia a música. Conseguem imaginar? O terceiro e último foi “Carissa” com banda completa. Tão bom.

Aparentemente desconfortável sem a guitarra nas mãos, Kozelek deambulou pelo palco durante o concerto todo enquanto berrava e se mexia de forma estranha e ainda arranjou tempo para uma piada quando perguntou algo como “que banda é esta cujo som está a chegar aqui?”, uma piscadela de olho à polémica com The War On Drugs, antes de dizer que era uma piada. Respirámos todos de alívio.

No meu caso, respirei de alívio também porque não saí do palco Pitchfork minimamente desiludido.

1. The New Pornographers

No último dia, esqueci aquilo de manter as expectativas num nível saudável por causa dos The New Pornographers, que nunca tinha visto ao vivo, e… foi uma excelente decisão. O concerto de uma hora – curto, muito curto! – foi intenso e cheio de grandes músicas, tanto de Brill Bruisers, o último álbum, como de todos os discos anteriores. “All The Old Showstoppers”, “Brill Bruisers”, “The Laws Have Changed”, “Testament To Youth In Verse”, “Sing Me Spanish Techno”, “Mass Romantic” e, graças a deus e a todos os anjinhos, uma das melhores músicas que esta Terra já ouviu, “The Bleeding Heart Show”… fizeram deste concerto o melhor que vi em todo o festival. A única forma de melhorar o concerto que os The New Pornographers deram no NOS Primavera Sound seria dar-lhes mais tempo para tocar coisas como “Use It”, “Challengers”, “Electric Version” e mais umas quantas.

E os outros?

De entre os outros, Belle & Sebastian, Damien Rice, FKA Twigs e Patti Smith merecem um destaque especial porque deram concertos excelentes. Adorei cada minuto, sendo que até tive direito a “I Didn’t See It Coming” no caso dos primeiros, algo que não esperava (como diz o título da música, de resto). Damien Rice encheu o palco principal sozinho, FKA Twigs deu-nos sexo (salvo seja) e Patti Smith deu-nos nostalgia e esperança num concerto rock à moda antiga.

Os Jungle também deram uma festa do cacete e a única razão pela qual não lhes dou mais destaque é porque me impediram de ver o concerto todo de Run The Jewels… que também estava a ser muito, muito bom.

Destaco ainda mais algumas conclusões estranhas a que cheguei:

1. Foxygen. Giro? Sim. Bom? Epá.

2. Xylouris White, a melhor dupla de bateria e alaúde do mundo, provavelmente (não, mas a sério, foi muito bom).

3. Antony & The Johnsons com uma orquestra gigante no palco principal, os outros três palcos sem programação (creio que por exigência do artista – e faz algum sentido, atenção), um silêncio incrível nos primeiros minutos do concerto… e a mais do que natural quebra do pacto entre artista e festivaleiros após algum tempo, tornando o concerto impossível. Era um espetáculo com tudo para ser inesquecível… numa sala, não ali.

4. Já não há Tripanário no NOS Primavera Sound. Parte da minha alma jaz agora no Parque da Cidade.

5. Os Interpol ainda existem.

As minhas falhas

Foi por um bom motivo chamado Belle & Sebastian mas… perdi Pallbearer. Perdi ainda Shellac, Einstürzende Neubaten (e não me peçam para dizer o nome em voz alta, por amor de deus), Viet Cong, Spiritualized e o concerto acústico de Patti Smith… que de acústico teve muito pouco e de spoken word ainda menos. Talvez numa próxima vez.

E o resto do festival?

Nem só de falhas minhas vive o NOS Primavera Sound e o som continua a ter alguns problemas (mas houve melhorias): graves até perder de vista, uma equalização nem sempre perfeita, sobretudo se estiverem mais perto do palco, e o público com som amplificado, o que soa sempre esquisito, são provavelmente os problemas mais chatos com que me deparei…

… o que só atesta o quão bem organizado é. Filas razoáveis para comer, beber, levantar dinheiro, fazer chichi (ou cocó, se forem dessas pessoas), o melhor espaço de todos os festivais portugueses, bom ambiente, boa visibilidade para todos os palcos… e este ano até o sol e as nuvens foram amigos do festival. O que pode uma pessoa querer mais?

Resumindo: se continuar a ter cartazes como este, não vejo qualquer motivo para deixar de visitar o Parque da Cidade e o Porto para ouvir boa música e trazer boas memórias.