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O que é isso de os dias não terem números?

O que uma música é capaz de nos fazer.



Justin Vernon descreveu-a como uma das suas canções favoritas de sempre. Foi através dele que a música me chegou e desconfio que possa ter acontecido o mesmo a muitos que agora a conhecem. Isto porque é um dos muitos samples usados no último álbum de Bon Iver.

O sample em causa é o verso-refrão de “00000 Million”, tema que encerra o disco:

‘Cause the days have no numbers

22, A Million foi editado em 2016 e, apesar de ter ouvido grande parte dos originais samplados no álbum pouco tempo depois do lançamento, o único que me agarrou na altura foi este viciante vídeo de Stevie Nicks a aquecer com “Wild Heart” (usado em “10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄”):

De resto, nada.

Até que, há uns meses, decidi acompanhar um concerto de Bon Iver em live streaming. Eram só três pessoas em palco e a experiência estava a ser menos interessante do que esperava (desde o lançamento de 22, A Million que os concertos costumavam ter sempre dez músicos), mas a parte final do concerto em Cork, na Irlanda, ofereceu algumas surpresas a quem assistia, incluindo músicas com os irmãos Dessner (dos The National) e com um coro local. A outra surpresa foi, lá está, “uma das canções favoritas de sempre” de Justin Vernon: “Abacus”, de Fionn Regan. Justin Vernon acompanhou ao piano, mas o foco esteve sobretudo no músico irlandês.

Lá tive de ficar agarrado à música. Ligeiramente mais lenta do que a versão original, aquela interpretação de “Abacus” teve algo de solene. Foi um momento tão bonito…

https://youtu.be/thCn_H62cuQ?t=40m15s

Nos dias seguintes parti para cima da versão original. E se a melodia doce e o dedilhado gentil já me tinham conquistado antes do primeiro refrão, quando me cruzei com o início da segunda estrofe, disse adeus ao mundo e entrei em modo repeat.

Drinking alphabetically because the beauty’s gone all sore

Nunca tinha pensado em sistemas para ordenar bebidas, mas alfabeticamente é muito provavelmente o melhor de sempre.

Que fique registado: não é só “beber alfabeticamente” que pode causar alguma confusão. Nada nesta canção de amor é particularmente fácil de perceber. Porém, não consigo de deixar de ouvir o refrão e pensar em desapego em relação ao resto, ao que não interessa. Além disso, o tom preguiçoso e estival da música reforça essa sensação, mas também cheira a tranquilidade.

If we leave tonight
Then we leave it all behind

Soa tão final e tão aberto ao mesmo tempo, não é? Para mim, resume-se a isso. Só assim se explica o vício.